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Carolina
Figueirêdo
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . joalheira

Nasci e cresci no Ceará. Entre a casa do sítio – correndo entre as árvores, fruteiras, o gado, os cavalos, os cachorros... subindo na casa da árvore e dormindo na de boneca - e a casa de praia – calma, na beira do mar. Desde 2015 morando em São Paulo, onde descobri que a joalheria era mais que um hobby e larguei tudo para transformá-la em minha profissão. Assumi Carola, meu apelido de infância, montei meu ateliê há 2 anos e a cada ano tenho mais orgulho do crescimento dele.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A fotografia, filmagem, a bancada e o metal. Fotografias e filmagens, eternizo momentos do meu dia a dia que fazem parte do meu processo criativo. Na bancada está toda a instrumentação que me desafia ao novo, a descoberta e a criação. É mágico o processo de transformação do metal puro em joia e ver surgir algo completamente diferente da matéria prima.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

É uma junção de sentimentos do momento, de formas que estão mais presentes nas minhas fotografias e filmagens. É um pouco do desejo de ver algo construído. Achei essa possibilidade de fazer a mão algo na joalheria. O que me encanta! Cada pedaço do processo é conquistador pra mim. No ateliê a maior parte das joias, é feito desde a liga do metal - com um maçarico enorme e um fogo forte que muitas vezes assusta, mas na maior delas me encanta - até o acabamento final da peça.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É um processo sem receita, eu diria. Às vezes ele se forma muito rápido e simples, já com cara e design antes mesmo de sentar na bancada. E às vezes ele vai se construindo, moldando, transformando a partir de um ou dois desenhos, onde de repente, na bancada surgem várias peças.

A mesa de desenho e a bancada estão sempre conectadas com uma música alta e um café quentinho.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Nunca consegui me dar bem com rotina, com horários. Não posso estar condicionada ou refém dela, com horários fixados, sem flexibilidade. Preciso me sentir livre no que estou fazendo para conseguir evitar bloqueios criativos. Antes da joalheria vivia no mundo corporativo e mesmo amando o que fazia, tinha muita dificuldade em fazer a mesma coisa todos os dias e nos mesmos horários. Hoje, continuo a mesma, mas me sentindo livre.

Tem dias em que tudo que preciso é ficar sentada na pracinha, que deixo minha cachorra correndo observando a natureza, tem dias que preciso de uma exposição de arte. Gosto de prestar atenção em tudo ao redor... na forma que as pessoas se vestem, andam, pegam no cabelo. Como um grafite foi posto no muro, o que ele representou ali. Aquele prédio novo, junto com a casa antiga do bairro. Pouco de todo esse cotidiano, me inspira muito.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Ainda não tive muitos pra escolher um e confesso que é difícil pra mim esse tipo de escolha. Amo a participação do artista plástico Nódoa na minha primeira coleção, que se chama Linhas e Curvas. Pedi que ele retratasse em alguns desenhos o que era esse primeiro momento de vida da Carola onde ele criou três desenhos mostrando o pouco do meu deslocamento do Ceará para São Paulo e um final chamado “Janela da Alma”.

Na minha segunda coleção, que se chama Àmpere, fui muito feliz em me soltar mais na minha essência, menos comercial.

E na terceira, que se chama Carnauba (foi lançada junto com a segunda), onde estou tendo a oportunidade de trabalhar com artesãs cearenses de palha.

Essas somas fazem parte do que acredito.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Um marco importante e especial foi começar a ver que pessoas que admiro e que fazem parte da minha vida começaram a acreditar, apoiar e querer ter seus trabalhos junto com o meu trabalho. Como minhas duas eternas professoras Fernanda Spilborghs e Tais Francelli.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minha infância é muito marcante e presente em mim. Minha mãe tinha uma loja de móveis e objetos em Fortaleza onde quase tudo era produzido em uma oficina atrás da loja. Tive muito contato com madeira, cipó e cerâmica. Desde criança eu via a matéria prima se transformar em arte final com muito carinho e depois ser exposta com muito brilho e cuidado. Ainda criança, vi meu avô e meu pai registrarem imagens, eternizando momentos através da fotografia. Nunca vou esquecer a primeira câmera fotográfica que ganhei! Já adulta, convivi e trabalhei com muitos arquitetos cearenses onde pude acompanhar muitos trabalhos serem construídos, ambientes serem revitalizados, lugares serem criados com amor e personalidade. Então o processo de criação e transformação sempre esteve presente em mim.

Confesso que pra mim é difícil eleger artistas preferidos, mas sem dúvidas todos os que fizeram parte da minha vida, estão no meu crescimento, estão na minha essência.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ainda existe preconceito sim e o machismo é forte na joalheria. Na história da joalheria a maioria eram homens, então ainda é evidente comentários e situações que tendem a desvalorizar um trabalho artesanal e autoral feito por mulheres nesse meio. Com o tempo, um bom trabalho e um belo sorriso conquistamos ainda mais o nosso espaço.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Criar, registrar, transformar e fazer.

Fazer e sentir com as mãos.

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Faça. Não tenha medo. Faça. Se não gostou, faça de novo e de novo. Mostre os motivos que te faz querer ter suas criações reconhecidas, como ela vai agregar valor e beleza. Escute o coração e externalize as emoções criando arte. 

Carolina Figueirêdo por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

A coleção Carnaúba que surgiu a convite do projeto Brasil Original, realizado pelo Sebrae - CE, onde lançamos um primeiro momento dela em outubro na Casa Cor Ceará e hoje estou dando continuidade com artesãs de palha do Aracati - CE. Nessa parceria, as artesãs me apresentam todo o processo de criação a execução e juntas vamos transformando em joias que complementam a coleção. Me fascina muito a forma em que cada uma delas olha para cada parte desse processo. Poder somar, unir, incorporar e valorizar juntas é enriquecedor. 

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