m
Carol W
Brasil
vivendo em Porto Alegre . RS
38 anos . artista

Pra mim, parece que faço arte desde que nasci. A arte faz tão parte de quem sou, que parece que sempre existiu na minha vida. Na verdade, posso dizer que sempre existiu sim de alguma forma, pois cresci vendo minha mãe costurar e tricotar lindas roupas para mim e para minhas irmãs e brinquei demais com as bonecas de pano que ela fazia pra gente. Meu pai, jornalista e muito interessado no mundo da arte, sempre me mostrou novos ilustradores, cartunistas, artistas e sempre me encheu de referências através de livros e de nossas conversas. Sempre fui incentivada por eles a ser artista, a ser o que eu queria ser.

A estética do meu trabalho é lúdica, infantil, levemente retrô, um trabalho que leva as pessoas diretamente à sua infância. Muitas pessoas já me disseram que se sentem felizes ao ver meu trabalho, sentem-se num sonho. Isso é exatamente o que quero transmitir. Trabalho há 20 anos principalmente com uma técnica muito usada na pré-escola, o papel maché, acho que vem daí também a minha identificação com a infância.

Enfim, arte pra mim é uma forma de voltar à infância todos os dias um pouquinho.

Carol W por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Desenho, pinto, faço xilogravura, mas trabalho principalmente com a técnica milenar do Papel Machê. Considero ele uma técnica um pouco marginalizada no mundo acadêmico das artes, mas acho que é exatamente isso que mais me atrai nele. Acho ele rústico, bruto. Mas ao mesmo tempo extremamente leve, delicado e muito livre.

Carol W por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Estou sempre tentando fazer algo novo. Tenho uma linguagem, um estilo e isso é ótimo, mas me angustia ficar sempre na mesmice, na zona de conforto. Por isso estou sempre buscando algo novo, algo que ainda não explorei. O universo infantil foi por um bom tempo a principal fonte de inspiração do meu trabalho. Quando uma criança cria, ela se solta completamente, ela não pára para pensar, simplesmente se solta.

Mas agora, sinto meu trabalho mais maduro e tenho trabalhado principalmente com o universo feminino. Minha última exposição “E depois...florir” que aconteceu esse ano em São Paulo, tinha como tema central a Primavera como estado de espírito, ou seja, trouxe esculturas de mulheres desabrochando, renascendo, felizes em serem elas mesmas, leves, delicadas, em paz... Agora acho que meu trabalho está indo mais por esse caminho mesmo: O da força da natureza e da alma feminina.

Carol W por Projeto Curadoria
Carol W por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Trabalho em casa e por isso a luta é diária pra manter uma rotina, não procrastinar em excesso e me manter focada. Mas faço de tudo um pouco, pois preciso do estímulo do novo. Então num mesmo dia posso desenhar, fazer uma escultura, dar aula e ainda fazer uma xilogravura no final do dia.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Uma coisa forte em mim é a curiosidade por diferentes assuntos. Ser curiosa sobre o mundo é o que mais me mantém criativa. Quero saber sobre tudo. Desde como é feito, por exemplo, o algodão doce até como funciona a turbina de um avião. A partir disso pesquiso muito e isso é uma diversão pra mim!

Carol W por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Amo um projeto que fiz em 2013 chamado “Eu fico com a pureza”. O projeto foi inspirado no livro “Casa das estrelas: O universo contado pelas crianças” do professor colombiano Javier Naranjo.

Uma parte do livro é um dicionário feito por crianças que traz cerca de 500 definições para 133 palavras, de A a Z.

Javier conta que compilou as informações durante dez anos enquanto trabalhava como professor em diferentes escolas do estado de Antioquía, região rural do leste do país.

Depois de uma grande procura por escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental, cheguei ao número de 9 escolas. Quatro públicas e cinco privadas. Visitei-as durante os meses de Julho e Agosto daquele ano levando comigo uma caixa colorida que fiz, repleta de palavras que eu julguei interessantes. Os alunos tinham então que defini-las para mim, como se estivessem explicando para alguém que se deparou com a palavra pela primeira vez e não conhecesse absolutamente nada.

Depois de percorridas as escolas, selecionei aquelas frases que eu julguei que poderiam me inspirar a criar as telas e esculturas da exposição. Trabalhei por cerca de 20 dias incessantemente, produzindo 18 telas e 4 esculturas.

No total conheci cerca de 1.000 crianças com idades entre 5 e 11 anos. Foi uma experiência incrível. Quando comecei, nem imaginava como eu sairia disso tudo. Hoje posso dizer que não sou mais a mesma depois de estar perto dessas crianças. Conversar com elas e ver como elas percebem o mundo, foi um dos maiores aprendizados que já tive.

Outro projeto importante pra mim foi a exposição do ano passado “A escuridão que me clareia”, do qual falarei mais na pergunta a seguir.

Amo também a exposição deste ano que já mencionei acima, "E depois...florir" justamente por definir um caminho, que quero seguir a partir de agora: O feminino.

 

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Posso dizer que a exposição “A escuridão que me clareia”, 2016, foi um grande marco na minha trajetória. Nela, pela primeira vez, mostrei um viés meu que nunca havia mostrado em meus trabalhos: A vulnerabilidade, o medo, a fragilidade. Me permiti expor esse lado, ser simplesmente humana. Foi libertador. A partir dela, sinto que meu trabalho mudou muito. As peças estão mais reflexivas, cheias de significados, delicadas, mais verdadeiras.

Carol W por Projeto Curadoria
Carol W por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho dificuldade de falar meus artistas preferidos, pois depende muito da fase que estou vivendo. Já fui louca por Ziraldo na adolescência quando já desenhava, mas também fui apaixonada pelo perturbador Hieronymus Bosch, artista Medieval. Hoje, estou buscando artistas mais contemporâneos que trabalham com escultura, bordado, ilustração, arte popular. A gama é imensa e as redes sociais nos aproximaram de muita gente, eu realmente não conseguiria citar só alguns nomes.

Eles se refletem demais no meu trabalho. O tempo todo. Às vezes vejo algo maravilhoso e quando percebo, essa influência aparece anos depois num trabalho novo. A memória guarda aquilo e traz à tona na hora certa.

Carol W por Projeto Curadoria
Carol W por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não sinto exatamente no meu seguimento, mas sinto um pouco sim no graffiti. Não é exatamente o meu foco, mas já fiz alguns trabalhos em muros na rua e escutei algumas piadinhas que não foram legais. Tem um pessoal que acha que pintar na rua é pros caras. Uma bobagem. A sociedade ainda tem muito a evoluir em relação a essa divisão do que é coisa de mulher e coisa de homem.

Carol W por Projeto Curadoria
Carol W por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Estar no meu ateliê trabalhando, o convívio com meus gatos e observar seu jeito, ouvir os pássaros que cantam aqui na minha região, ver o dia nascer, pequenas gentilezas, estar perto de pessoas que me fazem rir, matar saudades, acordar ao lado de quem se gosta, comprar um livro muito desejado, minha coleção de livros e zines, edredon, torta de bolacha. Uma coisa que tem me deixado muito feliz é viajar pelo Brasil levando minha oficina de papel machê, conhecendo lugares novos e pessoas maravilhosas. Meu trabalho me proporciona muitas alegrias.

Carol W por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Nas minhas oficinas, a maioria que vem aprender comigo é formada por mulheres. Sinto nas aulas uma troca linda que acontece. E vejo o quanto isso nos engrandece. Conversar, trocar, elogiarmos umas às outras e ajudar nas dificuldades que surgem. Eu diria que esse é o caminho. Trabalhar em grupo é extremamente enriquecedor.

Outra coisa importante é perder o medo de mostrar seu trabalho, acreditar mesmo no seu potencial.

Carol W por Projeto Curadoria
Carol W por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Em Outubro acabou a minha exposição “E depois...florir”, um projeto ao qual me dediquei boa parte deste ano. Então no momento estou me permitindo um descanso. Ainda estou produzindo, claro, mas somente fazendo algumas encomendas. Tenho também meu projeto onde pinto pratos de porcelana. Esse eu nunca paro. Procuro pratos antigos em antiquários e desenho neles com canetas especiais. Sou apaixonada por esse trabalho e fico feliz que é um projeto meu que tem preços bem acessíveis, atingindo um público maior.

COMPARTILHE
b
//+entrevistas