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Cami
Belô
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
33 anos . designer . ilustradora . bordadeira

Cami ou Belô, como preferir.

Paulistana, freelancer. Formada em Design Gráfico, trabalhei em áreas relacionadas a moda e beleza, dentro da publicidade. O desenho, faz parte da infância, quando desenhava mulheres e suas roupinhas em gibis e qualquer papel que me dessem, bem como as linhas e agulhas, das tardes em que via minha nonna bordar e costurar (e só queria brincar com os botões. Todo dia.).

Na faculdade, descobri que gosto da linguagem experimental, de transitar e brincar com mídias e materiais diversos, sempre com um toque mais manual. Apaixonada por cinema e fotografia, sempre flertei com a ilustração e foi na moda e nas artes que encontrei um caminho mais livre, com mais possibilidades.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Como técnica, a principal é o bordado livre. Mas basicamente, tudo começa com o grafite e segue para as linhas e agulhas. Também uso tinta acrílica, nanquim, ecoline e giz pastel. Como gosto de testar mídias além do tecido e papel, como a cerâmica, o metal e a madeira, então o material depende do que vou fazer, mas a linha, o lápis e a agulha, são sempre a base de tudo.

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação, creio que seja a vontade de ir sempre além, tentar melhorar e explorar maneiras de expressar o que sinto. Gosto de buscar detalhes e busco educar o olhar para perceber coisas sempre de uma forma nova, o que nem sempre flui tão naturalmente. Geralmente, meus trabalhos têm muito do meu humor no dia e do que está ao meu redor, desde uma situação a uma paisagem, por exemplo. Muita coisa me inspira, mas a música, as pessoas e a moda, são as principais fontes de inspiração. O exercício de ler, navegar na internet, buscar trabalhos antigos de ilustradores e artistas, ir a exposições, assistir a filmes é quase diário, mas a maior parte dos trabalhos nascem de um palavra perdida em uma música ou de um detalhe que vi em uma fotografia de desfile, por exemplo.

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// Como é o seu processo criativo?

Há algum tempo, percebo que o processo de criação varia e não é nada linear. Por muito tempo o desenho, embora muito presente no meu dia a dia, foi um hobby, um ponto de vazão, então o processo sempre foi muito livre. E em trabalhos mais autorais, o processo continua sendo bem randômico.

Quando é um trabalho para um cliente ou agência, mesmo quando mais livre, costumo dividir em 3 partes: primeiro, busco sempre extrair o maior número de informações, de trocar idéias. Gosto de pesquisar imagens e, quando rola, gosto de livros relacionados ao assunto e, a partir daí, criar alguns rabiscos, que vão evoluindo até o produto final. Geralmente, a parte de bordado, após aprovação da ilustração e cartela de cores, faço de forma livre, adaptando os pontos e técnicas conforme a idéia já discutida com o cliente. Mas no fim, o processo depende do prazo, como o trabalho costuma ser 100% manual, nem sempre consigo passar muito tempo pesquisando, então o processo varia de trabalho a trabalho.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento manter uma rotina de navegar por sites de design, ilustração, moda e arte e sempre, sempre assistir a filmes ou séries e ouvir música. Tenho uma lista nos favoritos, de artistas, fotógrafos e ilustradores que gosto, por exemplo, e sempre navego por eles, buscando exercitar o olhar e a mente. Gosto muito de descobrir novos sons ou revisitar os antigos. Busco sempre que possível, sair e observar as pessoas e lugares ao redor, buscar detalhes trocar ideias quando possível. Gosto de sair com amigos, são sempre fontes de informação e troca. Viajar também é sempre uma fonte de inspiração e renovação.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Em geral, gosto dos trabalhos e projetos, por ser sempre uma desculpa para aprender e trocar mas tenho muito carinho por alguns trabalhos que fiz em parceria, pois além de conhecer outros assuntos, técnicas e processos, também consegui perceber o quanto a ilustração e o bordado têm de resgate e de possibilidades, o quanto têm a ver com a minha área de formação também, o design. Cada trabalho, cada parceria, é sempre um aprendizado e evolução. E gosto muito de alguns trabalhos que fiz logo que aprendi a bordar, em meados de 2014. Quando você aprende a técnica, começa a ver o mundo diferente (é sério! Você quer sair bordando tudo!! E acredite, é possível, rs).

Quando comecei a substituir os traços a lápis pelas linhas, vi que era ali que conseguiria expressar e experimentar de outra forma. Esses primeiros trabalhos, acabaram virando uma parceria com a Patricia Grejanin, da loja Laundry e foi através deles que a Belô, foi nascendo como ilustradora e transitando por vários meios. Esses trabalhos, são os preferidos por serem mais livres, foi neles que comecei a explorar as possibilidades e a definir melhor os caminhos e estilo que gostaria de seguir, com os meus desenhos.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Desde que comecei a trabalhar com bordado e ilustração, cada passo que dou influencia e decide muito o rumo da carreira. Mas tive dois momentos que foram bem importantes em termos de trajetória: o primeiro, foi na faculdade. Após uma série de “você não serve para desenhar, nem pense nisso” e com muito incentivo de uma amiga, voltei a fazer aulas de desenho e, desde então não parei mais de desenhar. Em 2010, fui morar fora e estudar Fotografia e Ilustração Experimental de moda. Ali, comecei a entender que nada adianta gostar ou ter habilidade se não há um exercício diário, nem que seja por 5 minutos. E que nada vêm sem referência, sem estudo. Quando voltei, a ilustração era aplicada aos trabalhos de design e faziam parte da minha rotina, como hobby.

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O segundo momento, foi em 2014, quando comecei a bordar. Resolvi aprender a bordar, primeiro pela lembrança da minha nonna (de quem herdei botões, linhas e agulhas, que ela tanto utilizava quando eu era pequena) e segundo pois já havia tido contato com bordado contemporâneo na arte e na ilustração e queria fazer algo com as mãos, mais como terapia. Nessa época, havia saído de agência de publicidade e comecei a trabalhar como assistente de ilustração e design de novo e, aos poucos, as coisas começaram a fluir, os trabalhos foram saindo do papel e migrando pro tecido e, com muito incentivo e trabalho, aos poucos foi nascendo a Belô, que é meu lado mais livre, mais criativo. A partir daí, todos os trabalhos, incentivos, trocas e parcerias, foram definindo a ilustração bordada como uma possibilidade além. Embora ainda trabalhe com design, de tempos em tempos, não me vejo fazendo outra coisa.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho muitos artistas preferidos e, em termos de estética e mídia são muito variados. E, não de forma tão marcada, influenciam meu trabalho, e são fontes de inspiração seja em tema, traço ou cores.

Citando alguns, em cinema, o Chan Wook Park , Wong Kar Wai, Jean Pierre Jeunet e Michel Gondry. Artistas e ilustradores como Magritte, Alphonse Mucha, Pipilotti Rist, Sophie Calle, David Hockney, Otto Dix, Yoshimoto Nara, Egon Scielle, Ikenaga Yasunari, Alexandra Levasseur, Nick Cave, Milo Manara, Guido Crepax, Gil Elvgren e movimentos e escolas como a Bauhaus e o Dadaísmo, a Lowbrow Art, o grafitti. Arquitetos como Zaha Hadid e o design gráfico russo e escandinavo, também são grandes influências.

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No bordado, gosto muito dos trabalhos da Ana Tereza Barbosa, Leonilson, Liza Smirnova, Michelle Kingdom, Karin Van Der Linden e Lauren Dicioccio.

Gosto e utilizo muito a música como inspiração e, o que ouço influencia diretamente no meu trabalho, pois têm muito a ver com lembranças e humor. Já fiz alguns trabalhos com base em músicas do The Cure, do Johnny Cash e da Lykke Li, por exemplo.

A maior influência no meu trabalho é a moda, quer seja na fotografia, nas passarelas, revistas ou na ilustração. Gosto muito do trabalho de marcas como Yoshi Yamamoto, Balenciaga, Vivetta, Rodarte, Valentino, Schiaparelli, McQueen, Ronaldo Fraga e dos ilustradores Ezra Roise, Laura Laine, Cecilia Carlstedt e Richard Gray. A fotografia de moda feita por Solve Sundsbo, Cass Bird, Imogen Cunningham e Michal Pudelka, também inspira. A moda permite brincar e transitar sem medo entre o lúdico e o sério, sabe?! Não me considero ilustradora de moda, mas utilizo muitas imagens de campanhas, desfiles e ensaios como base para o meu trabalho e deles saem muitas ideias, sempre.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, ele existe e, infelizmente, muitas vezes vêm de uma mulher.

Na arte, que sempre foi uma forma de expressão, a mulher sempre ficou de canto, se expressando de forma mais contida e esse preconceito sempre prevaleceu ou atuou de forma bem marcada. Aos poucos, sinto que isso vêm mudando mais e mais não só na arte, mas em termos gerais de expressão. Quando envolve trabalhos com bordado, vejo cada vez mais mulheres que utilizam a delicadeza da técnica para se expressar de forma direta, passando a mensagem de uma forma consistente, e isso com certeza, têm ajudado a fazer a diferença em geral. Em relação ao meu trabalho, não sinto tão forte ou sempre, mas em alguns momentos, esse preconceito ainda acontece sim ou já aconteceu.

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// E o que te faz feliz?

Conseguir levar a vida com leveza, mesmo nos tempos mais difíceis.

Momentos com pessoas queridas, ouvir música bem alto no fone (mesmo sabendo que não é saudável), trabalhos desafiadores que dão certo, desenhar, ir ao cinema, sentar com amigos por horas, poder caminhar observando as pessoas e os lugares, poder viajar, ir a museus, descobrir coisas novas e a natureza, o mar.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Primeiro: leia, brinque, ouça música, viaje, saia de casa, observe, fotografe, desenhe, ria, sorria, gaste tempo fazendo nada, obedeça seus sentimentos e aprenda seus limites. Faça algo que goste e busque sempre dar o seu melhor de forma leve, equilibrada. Estude, experimente, brinque, erre, acerte.

Sei que tudo parece frase pronta, mas perceber o que faz melhor e sempre buscar equalizar e melhorar o que acha que não está bom, tentar aprender e trocar, não ter medo de dividir e também de perguntar, ir atrás, é necessário. Trabalhar a percepção diariamente e sempre, sempre tentar evoluir e melhorar no que faz.

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Vivemos em tempos em que se quer ser bom em tudo e isso gera uma ansiedade, um desequilíbrio constante. Conhecimento e aprendizado vêm aos poucos, com o tempo e com vontade, trabalho, determinação. Não adianta querer abraçar o mundo e no fim, não conseguir focar em nada. Saber ouvir, saber perceber seus limites e não esperar só sucesso, só reconhecimento o tempo todo.

E nunca, jamais deixe ninguém diminuir tuas vontades ou habilidades. Saiba dos seus limites e trabalhe, lapide o que faz bem e o que te incomoda.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho algumas parcerias em andamento com a Galeria Órbita e com o site Modefica, ambas, parcerias que já carrego comigo há algum tempo e que se fortificaram e continuaram. Além disso, ainda esse ano, pretendo ter meu próprio espaço de trabalho.

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