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RESPONDA NOSSA PESQUISA E PARTICIPE DO
MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
//PARTICIPAR//
*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
m
Cacau
Weimer
Brasil
vivendo em São Leopoldo . RS
24 anos . artista

Nasci em São Leopoldo - RS, cidade onde eu moro desde então e tenho meu ateliê. Minha relação, interesse e proximidade com a arte e afazeres manuais começaram desde a infância, sempre mantive o ato de desenhar e pintar vivo nos meus dias, por sincera vontade de fazê-lo. Até que certa vez, minha professora de artes do colégio (se não me engano, eu tinha doze anos) ao perceber meu gosto pelas aulas e empenho na realização dos trabalhos, me convidou para participar das práticas de pintura a óleo em seu ateliê, e este momento fez com que eu começasse a ter certeza do que eu gostaria de fazer na minha vida.

Confiei nos meus instintos e no que me fazia feliz e acabei seguindo pelo universo da arte, mas para isso, também tive muito apoio e incentivo de pessoas muito queridas e importantes na minha vida, como meus pais e minha irmã Sarah. Atualmente sou formada em Licenciatura em Artes Visuais pela UFRGS e atual bacharelanda em Artes Visuais na mesma instituição. Atuo como artista, professora de Artes Visuais na Educação Infantil e possuo uma marca autoral denominada Devaneio.

Passei por diversos momentos ao longo da minha trajetória, mas o mais intenso foi o período em que acabei deixando de produzir por um certo tempo, devido à algumas incertezas pessoais. Ao longo deste período me dediquei, criei e me envolvi com outros projetos relacionados à arte e montagens de exposições, mas o mais especial foi o Acervo Independente. O Acervo foi uma casa colaborativa de arte e criatividade que abrigava diversos projetos artísticos como a galeria do espaço, coworking, oficinas, cursos, conversas com artistas e muito mais. O projeto residia em uma casa centenária no coração do centro histórico da cidade de Porto Alegre e foi fundado coletivamente, por mim e mais seis colegas e grandes amigos no ano de 2013. Todos nós tínhamos um objetivo em comum: criar um espaço que incentivasse, acolhesse, e escutasse os jovens artistas, assim como nós. O projeto transcendeu a sua proposta e promoveu encontros com pessoas de tantas áreas e lugares diferentes, tantos momentos maravilhosos foram vividos, tantas exposições realizadas, tanto conhecimento trocado e adquirido que ao finalizar seu ciclo de vida na metade deste ano, 2017, sinto que o papel e o objetivo do projeto foram cumpridos da maneira que precisava ser, sem tirar nem pôr.

O meu retorno às práticas de produção é relativamente recente e atualmente no campo das Artes Visuais a minha pesquisa permeia pela pintura, desenho e ilustração. Investigo, crio, recrio espaços internos de casas, objetos cotidianos e a natureza à procura de salientar sua poética.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Acredito, no meu caso, que o olhar e a imaginação são capacidades que se tornam as ferramentas principais e iniciais de todo o meu processo criativo e produtivo, pois a minha prática inicia antes mesmo da concretização de um trabalho, por isso valorizo-os como recursos fundamentais. Atualmente, para traduzir o meu trabalho, utilizo basicamente o grafite e a tinta acrílica, além de variar os suportes entre telas e papéis. Isso não quer dizer, que não me permito me aventurar pela serigrafia, aquarela ou guache de vez em quando. Sempre busco experimentar e utilizar o material que converse melhor com a proposta do trabalho.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

De certa forma, tudo que me cerca pode se transformar em inspiração. Tento trabalhar a minha sensibilidade e manter o meu olhar atento para observar e ser capaz de absorver e recortar do entorno cores, texturas, formas, composições, conversas, que possam abrigar o meu imaginário e contribuir para o meu processo criativo.

Os espaços internos de casas, os objetos que os constituem e a natureza que os aconchega, são elementos os quais naturalmente de forma sincera direciono o meu olhar e me inspiram todos os dias. Acredito que os espaços e os objetos que os constituem são dispositivos bastante potentes capazes de instigar, provocar, interligar os pensamentos, as memórias, as lembranças, as sensações e os devaneios que se conectam com o nosso íntimo e imaginário. Dedico um olhar a esses objetos cotidianos, que temos em casa, e aos espaços que abrigam-os, para além de suas funções previamente estabelecidas, acredito que atribuímos a eles valores simbólicos, significados, afetos e sentimentos que transcendem a sua estética e utilidade. Os espaços que frequentamos, vivemos, construímos, ou apenas apreciamos, revelam muito sobre o nosso universo íntimo e pessoal. Ao criar espaços, cantos e objetos, busco dialogar com o espectador sobre essas experiências e relações possíveis que estes espaços imaginados e os objetos que os compõem podem nos despertar.

As cores, as formas sinuosas, a diversidade e a riqueza de detalhes da natureza me inspiram diariamente, tento trazer um pouco dela para os espaços que convivo, transformando-os em recantos de inspiração para mim.

Dentre os múltiplos papéis e funções da arte, os fatores que mais me motivam a criar são as infinitas possibilidades de se conectar, compartilhar, propor, comunicar-se com o outro, conhecido ou desconhecido, através de uma experiência estética, mas também de maneira transcendente a ela, a partir de algo que conforte, aconchega, alivia, estranhe, “brinque” com o imaginário das pessoas e que por certo momento possa ser um refúgio do real, um novo abrigo para a imaginação.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É um carrossel de possibilidades e variantes. Ora feito de caos, ora de calmaria. Não possuo um método rígido que sigo à risca ou que funcione sempre, se fosse tão simples assim, talvez, não teria tanta graça.

Observar, captar, absorver o que vejo, onde estou, o que é falado e o que sinto, fazem parte de um estágio inicial. A partir destes registros começo a pensar na essência do trabalho, suas composições, paleta de cores, até de fato colocar a mão na massa. Muitas transformações podem ocorrer ao longo do processo e me permito estar aberta a essas chamadas de mudanças.

Às vezes, me permito criar sem pensar tanto previamente, apenas sigo meus impulsos, e o próprio processo do fazer vai me dando as respostas (em certos casos, só tempos depois do trabalho pronto passo a compreendê-lo, de fato). Cada processo é único e acaba sendo diretamente influenciado por como estou no determinado momento. Funciono muito melhor quando estou tranquila, calma e relaxada, mas para atingir esse equilíbrio, para alguém ligada no 220V, como eu, tem seus desafios, mas nada como uma boa playlist, uma xícara de café, um banho, uma corrida na rua ou fechar os olhos por algum tempo.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Como disse anteriormente, procuro manter a todo o momento, o meu olhar atento e a mente aberta, tentando fisgar tudo que possa complementar a mim e/ou ao meu trabalho.

Alimento o meu repertório visual diariamente com o que eu vejo ou vivencio. Tudo que considero potente para inspiração ou como referência, seja para o exato momento, amanhã ou anos depois (vai saber), tento guardar de alguma forma, seja desenhando, escrevendo, fotografando ou salvando para poder posteriormente, se achar pertinente, revisitar esses registros ao longo do processo de criação.

Normalmente, carrego comigo alguns materiais super simples e usuais como um sketchbook e um lápis, para tentar não perder um insight ou deixar uma ideia se disseminar. Esse costume, tem facilitado e otimizado bastante a produção dos últimos trabalhos, pois, muitas vezes as ideias surgem em momentos aleatórios.

Procuro viver de acordo e de forma coerente com o que eu quero transmitir. Essa fusão entre produção e vida cotidiana acaba por ser natural a partir do momento que trago muito de mim para o meu trabalho poético. E visitar espaços ou me relacionar com pessoas e coisas que me inspiram e dialoguem com a minha produção é algo que contribui muito para manter a minha criatividade ativa.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Difícil dizer, todos os meus trabalhos tem importâncias muito semelhantes para mim, pois muita energia foi disposta em cada um deles, por mais simples que ele seja. Se fosse para escolher apenas um, talvez eu escolhesse a primeira tela desse retorno à pintura e de uma nova autodescoberta, acredito que ela tenha um espaço especial no meu coração.

Dentre os projetos bacanas que esse ano me proporcionou, um que foi uma experiência singular, foi a produção da arte da capa de um livro, denominado Demônios Domésticos, do Tiago Germano publicado pela editora Le Chien. Esse projeto além de ter tido um processo intenso de trabalho conjunto entre eu, o autor e a editora, eu pude experienciar algo até então não vivido e explorado por mim, que é essa interrelação entre arte e literatura, onde, o processo criativo foi disparado pela leitura de escritos, neste caso, crônicas. Gosto de desafios e projetos que me tiram da zona de conforto, mas que deixam aflorar a essência do meu trabalho.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Por mais que a minha trajetória tenha sido longa e constante, tiveram alguns desníveis no meio do caminho que me fazem considerar e encarar o meu trabalho como uma carreira recentemente. Acredito que o meu retorno à universidade para cursar o Bacharelado em Artes Visuais com o objetivo de focar na minha pesquisa e produção poética foi um passo de extrema importância. Porém, tudo que antecedeu esse momento, talvez tenha um peso ainda maior, pois foi um momento de transformação íntima, de autoconhecimento e uma vontade interna muito intensa de voltar a produzir. A necessidade de criar e não conseguir mais conter em si toda essa turbulência de sentimentos e vontades talvez não tenha uma data exata, mas acredito que os grandes marcos possam provir dessas pequenas transformações, que podem até não nos fazer lembrar o dia, mas mudam a nossa trajetória naturalmente.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Há diversos artistas que me inspiram, de diferentes vertentes, muitas vezes tendo relações mais evidentes com o meu trabalho poético ou não, como Louise Bourgeois e David Hockney, por exemplo, mas elegendo um, diria que o Henri Matisse sempre esteve no topo da lista. Não me canso de revisitar os trabalhos do Matisse, tanto suas pinturas com recortes de espaços internos mais ligados a sua fase “decorativa”, quanto suas colagens e seus desenhos de traços simples e orgânicos que, aliás,  essa é uma linguagem que estou pensando em começar a explorar um pouco mais na minha produção. Me encanta o uso das cores e como elas dialogam entre si em composições mais planas que fogem do extremo realismo, onde todos os elementos parecem ser trabalhados separadamente tendo quase o mesmo destaque dentro da obra. A partir de uma interpretação pessoal, essa evidência e destaque que percebo dos elementos nos trabalhos do artista (especificamente nos trabalhos com influências decorativas de Matisse) me remetem aos valores e significados que os objetos carregam consigo, que transcendem a sua estética e realçam a sua importância, ao menos é assim que eu os enxergo, para além de suas funções meramente decorativas, estéticas e utilitárias. E nos meus trabalhos tento abordar as poéticas desses objetos e espaços cotidianos, propondo ao espectador um novo olhar sobre eles.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Com certeza, em diversas ordens inclusive, como sociais, políticas, profissionais, etc. O caminho de mudança desse cenário, ainda um tanto (bastante) conservador e machista, é longo, e por isso precisamos nos unir para transformá-lo. O ato de se expressar criando já é em si um ato político de luta, de voz, de embate que não se concentra apenas ao fato de criar algo novo ou diferente, mas sim de conquista pessoal, social, de um espaço que é também nosso. Enquanto essas questões ainda forem pauta de discussão, temos muito a fazer.

No meu trabalho especificamente, eu não sinto um reflexo tão explícito em relação a estes preconceitos, ou ao menos ainda não chegou até mim, e mesmo se chegasse, estes não seriam os motivos que me fariam parar ou mudar minha produção, muito pelo contrário.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

São tantas as coisas e pessoas pelas quais fazem o meu coração sorrir. O simples fato de criar sem pressa, sem prazo, sem pensar muito no tempo-espaço é atingir uma felicidade em sua mais pura simplicidade, assim como ouvir um bom som só ou acompanhada, correr na rua, dançar, tomar uma xícara de café nos fundos de casa com meus pais, viajar, tomar um banho de cachoeira, trilhar despretensiosamente pelo mato ou pela cidade, cuidar das minhas plantas, conhecer lugares novos, estar com quem eu amo fazendo qualquer coisa, tomar bons drinks, ou melhor, eu mesma fazê-los, e por aí vai, a lista segue.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Desprenda-se de seus medos e vergonhas, o ato de se expressar nada combina com esses sentimentos. Liberte-se. Sempre haverão pessoas que simpatizarão com o teu trabalho e outras não, por isso não tente agradar a todos, tudo que você for fazer faça por você.

Se todas nós temos o nosso espaço no mundo então quer dizer que há espaço para todas as nossas criações, pois, arrisco dizer que toda criação é de certa forma uma extensão de quem cria. Então, invente, crie, expresse a sua verdade, seja ela qual ou como for, pois isso faz parte da graciosidade de ser quem você é. Assim como digo isso a todas as mulheres continuo a repetir à mim mesma quando me deparo com a dúvida, medo ou incerteza (sim, de vez em quando esses sentimentos ainda vêm me visitar) a maneira que digo para irem embora é criando, aprendendo e produzindo. Então, que sigamos convictas e confiantes sobre quem somos e o que queremos fazer, que nada seja um empecilho mas, sim uma oportunidade de aprendizado e crescimento.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, as ideias de projetos não param, pretendo realizar uma exposição individual em breve, mas, também pretendo reorganizar e dar um novo ritmo a um projeto muito importante pra mim, ele já existe e não é tão novo, mas dentre a sua potencialidade, que acredito que ele tem, pode ir muito além, é a minha marca Devaneio. A Devaneio é uma marca de produtos artesanais feitos a partir do reaproveitamento de retalhos de couro excedentes das produções das indústrias da região onde eu moro. Cada peça é única, não tenho uma linha de produção seriada, pois a intenção é pensar peça por peça para assim, aproveitar melhor cada retalho de couro e materiais utilizados, e estar sempre criando algo diferente. Adoro que o próprio material que utilizo não deixa o processo criativo e produtivo se tornarem algo monótono e/ou mecânico, pois, cada peça provém de um novo devaneio. Acredito que transformar, dar um novo rumo e ritmo a este projeto seja um dos objetivos que procuro me dedicar ainda mais, concomitantemente aos meus projetos artísticos. Quero explorar novos materiais e linguagens diferentes de me expressar.

Cacau Weimer por Projeto Curadoria
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