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Bruna
Bortolotti
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
24 anos . joalheira

Desde os 19 anos re-descubro, com a ajuda do meu avô, o hábito de infância de transformar curiosidades e desejos em objetos, desenhos e palavras. Esse hábito encontrou vazão na ourivesaria, o manuseio de metais nobres, que já estava na minha família, mesmo indiretamente, há algumas gerações.

Durante o curso de arquitetura sentia falta de vivenciar todas as etapas da execução de um objeto, de ver um projeto que eu idealizava concluído e executado. Foi quando resolvi fazer um curso de ourivesaria básica em São Paulo. Quando voltei à Fortaleza, montei uma bancada de trabalho na casa do meu avô, Seu Bomfim, um ourives autodidata, e nunca mais parei.

Trabalho diariamente na oficina que compartilhamos, construída e montada por ele na sua casa.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O lápis, o papel e a prata estão presentes no meu cotidiano, conversamos muito juntos.

Não acredito que o objeto final seja uma expressão puramente minha, mas uma junção do que eu desejo falar com o que os materiais querem transmitir.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A capacidade que os projetos têm para sair da cabeça e ganhar expressão, sair do papel e ganhar volume; A transformação constante das ideias em prática, de práticas em ideia me inspira e, claro, meu avô, o maior criador que já conheci.

// Como é o seu processo criativo?

Está sempre mudando. Costumava fazer projetos detalhados das peças que ia executar antes de fazer qualquer teste na bancada. Hoje tento constantemente me desvencilhar do projeto como método de expressão criativa. As tentativas, os erros, as soluções instantâneas e as demoradas, na prática da oficina, me impulsionam e me fazem acreditar que a vida acontece no contato das mãos com os materiais e no espaço do convívio com as coisas e pessoas.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Criação é exercício. A criatividade não é divina, vem com o trabalho, com a prática, com os erros e acertos e, para mim, vem da intimidade que se ganha na convivência com os materiais, máquinas e ferramentas na oficina.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As peças que desobedecem ao projeto são minhas preferidas. As peças criadas na bancada, as que se modificam no momento da execução, as que transformaram as etapas da criação e não saem tal qual planejadas no papel.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O lançamento de Sagitário, na Sem Título Arte, um espaço de exposição e discussão de arte contemporânea em Fortaleza.

Sagitário é uma série de peças que fiz sobre meu avô com auxílio de uma máquina construída por ele. No lançamento conversamos sobre ourivesaria, processos de criação e o cotidiano na oficina.

Como trabalho muito sozinha, ter essa troca de experiências com pessoas que se interessam pelo meu trabalho é incrível e transformadora.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Acompanho diversos artistas ourives, no Brasil e fora, que tem trabalhos maravilhosos, mas acredito que grande parte do que me inspira está fora do universo da joalheria.

Meu avô é um inventor de joias, de máquinas, de ferramentas. Todas as suas criações partem de demandas próprias, desejos e soluções para questões do seu dia a dia. Sua capacidade de inventar e método criativo me inspira mais que tudo.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

No que diz respeito à criação, no meu trabalho, não sinto. Em relação à administração da loja, como negócio, sim. Muitas vezes me escondo atrás do “Bortolotti”, ninguém sabe, à primeira vista, que se trata de uma mulher.

Em diversas outras áreas da criação ainda há muita dificuldade. Precisamos falar sobre isso cada vez mais, incentivar mulheres, priorizar trabalhos feitos por mulheres e nos apoiar mutuamente.

// E o que te faz feliz?

Ter persistido no trabalho que faço. É preciso que reconheçamos, antes de qualquer um, que o que fazemos vale a pena, que temos algo de importante para contar.

No dia a dia, estar na oficina, definindo meu próprio ritmo e experimentando novas formas, materiais e soluções me faz feliz.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Nunca parar de pesquisar, experimentar e compartilhar seu trabalho com os outros. Todas temos histórias que valem a pena contar.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Hoje, na busca por aproximar a criação da prática, pesquiso muito mais histórias que me interessam para criar novas peças, do que formas em si, por mais que isto se mostre, no objeto final, muito abstrato e quase imperceptível. Coleciono causos contados pelo meu avô, lugares que ele visitou cuja imagem criei, vejo peças que ele fazia e espero que isto se transforme em peças algum dia.

Bruna Bortolotti por Projeto Curadoria
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