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Bianca
Moreira
Brasil
vivendo em Bauru . SP
20 anos . fotógrafa

Neta de duas mães solteiras que enfrentaram o machismo nas ruas e os maus olhos de seus familiares para criarem seus filhos. Primeira de sua família, formada majoritariamente por grupos desprivilegiados (negros e nordestinos), a ingressar em uma universidade. Fotógrafa e jornalista em formação que está em diversos projetos sociais porque acredita na comunicação como ferramenta de transformação social. Feminista antes mesmo de conhecer o real significado disso - um dos privilégios de pertencer a uma família matriarcal. Perambula em torno de três cidades, Bauru a cidade onde mora e estuda, Guarulhos sua terra natal e São Paulo onde participa de alguns projetos. Presença certa em manifestações sempre que estão ao seu alcance. Entusiasta das artes que ainda sonha em ser cineasta e que tem tentado explorar outros ramos da fotografia além do fotojornalismo, sua verdadeira paixão, como uma forma de descoberta da própria subjetividade e do significado de ser mulher.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A minha principal ferramenta de expressão é a fotografia. Ao longo desses dois últimos anos que venho fotografando com mais frequência e aprofundando meu conhecimento na área, percebo cada vez mais a importância da pós-produção e como ela pode fazer a diferença no resultado final de uma fotografia.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

No fotojornalismo minha maior inspiração são as pessoas. Eu tenho um enorme prazer em colocar a câmera na bolsa e correr para as ruas. Essa experiência é muito interessante porque você não sabe ao certo o que vai encontrar, é sempre uma surpresa. É preciso se manter atento porque sempre há mil coisas acontecendo ao seu redor ao mesmo tempo e uma cena não se repete duas vezes da mesma forma na rua, se você não capturou aquele instante, o perdeu para sempre. A maior motivação que eu tenho na prática da fotografia de rua é a diversidade de pessoas, expressões e situações que eu encontro nelas. Eu tenho uma verdadeira paixão por retratos, mesmo quando estou em grandes manifestações como a Parada do orgulho LGBT, a marcha da maconha ou mesmo a marcha do dia 8 de março eu sempre faço muitos retratos. Dificilmente faço uma tomada em que pegue a multidão.

Mais recentemente tenho tentado explorar um pouco o ramo da fotografia artística, ainda estou em fase de experimentação e aprendizado, mas o que mais me inspira nessa área é a possibilidade de transmitir um pouco de quem eu sou, do meu mundo, pensamentos e também das pessoas que me rodeiam.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Na fotografia de rua, área em que eu tenho mais experiência, a criatividade acontece em instantes, é tudo muito rápido. No meu caso, eu sinto que o processo criativo vem sendo aprimorado conforme a prática, cada vez que eu saio para fotografar me sinto mais preparada do que na vez anterior, o olhar se modifica. Também gosto de procurar referências, perceber como outros fotógrafos trabalham, quais são suas estratégias e suas formas de trabalhar.

Fora das ruas, eu tenho tentado olhar para mim mesma, para a minha história, a trajetória da minha família, em especial para as mulheres. Tem sido um processo bastante interessante de autoconhecimento e ao mesmo tempo difícil, não é tão simples transformar sensações, sentimentos e nosso mundo subjetivo em imagens. O resultado tem sido muito gratificante e satisfatório, apesar de exigir um maior tempo de elaboração.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Antes de escrever ou fotografar sobre um determinado tema, eu sempre passo por um processo de imersão sobre ele. Busco referências de todas as partes, na literatura, na música, no cinema e nas artes em geral. Passo horas e às vezes dias anotando trechos de músicas, de livros e pensamentos que surgem sobre o assunto em um caderninho. Durante esse processo de escrita às coisas vão se tornando mais claras para mim. Já surgiram ocasiões em que a ideia inicial foi totalmente transformada durante esse processo de imersão.

Outra estratégia que tenho tentado por em prática nessa minha “nova fase” de experimentação é ouvir mais as pessoas ao meu redor. Prestar mais atenção nas histórias que elas têm para me contar e tentar tirar temas e inspiração delas. A minha avó materna tem sido uma das minhas principais fontes atualmente, para mim ela é um exemplo de mulher que um dia espero ser. Sua postura de “insubmissão” e independência feminina tem me feito pensar e querer transmitir essa energia para as minhas fotografias.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Não tenho nenhum trabalho ou projeto que possa eleger como meu favorito. Até porque nunca fechei um projeto em si durante esse meu curto período como fotógrafa. Cada cobertura que fiz de manifestações, cada saída às ruas ou cada ensaio que me aventurei carregam um pouco de mim e do momento em que eu estava, da minha evolução como pessoa e profissional. Então eu guardo um carinho especial por cada uma delas. No entanto, como um próximo passo na profissão, penso em fechar um tema e trabalhar de forma mais profunda nele.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O primeiro marco decisivo foi o meu ingresso na faculdade de jornalismo, que, consequentemente me despertou para o fotojornalismo e para a fotografia de rua. A minha participação como fotógrafa na casa do Hip Hop de Bauru também foi e é muito importante. Lá eu pude aprender muito sobre a cultura Hip Hop e de rua, tive contanto mais próximo com a cultura negra e com diversos outros fotógrafos, Mc’s e artistas em geral. O que com certeza modificou muito a minha percepção de mundo e me trouxe um crescimento enorme como pessoa e profissional também.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

No fotojornalismo eu admiro o trabalho da Donna Ferrato, da Claudia Andujar e do Sebastião Salgado. E fora dele, o trabalho das fotógrafas Nádia Maria, Tuane Eggers, Grete Stern e a Gabriela Rivera Lucero tem sido uma grande fonte de inspiração. Quando tive contato com o trabalho dessas mulheres eu comecei a ter uma percepção diferente de fotografia e a partir daí me deu vontade de explorar um campo mais subjetivo e de experimentar novas ferramentas de edição. E essa proximidade com o modo de trabalho dessas fotógrafas tem me influenciado diretamente, no sentido de procurar encontrar meu próprio estilo e forma de expressão.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, com certeza, não só em se expressar livremente, mas em todos os âmbitos da vida social. Acho que o maior preconceito advém da pouca atenção e da baixa divulgação dos trabalhos das mulheres em relação ao dos homens. Na própria escola e na academia em geral nos é apresentado pouquíssimas mulheres na história da arte, não porque elas não existiram, mas porque seus trabalhos não são reconhecidos e são colocados em uma escala de menor importância. Recentemente foi formado um coletivo de mulheres fotografas na universidade onde eu estudo para discutirmos o lugar das mulheres na fotografia. Durante alguns debates chegamos à conclusão que tínhamos pouquíssimas ou quase nenhuma referência de mulheres fotógrafas e que nas artes em geral é comum ver a mulher como objeto de uma obra, mas não como produtora dela. Hoje isso está mudando, mas ainda há muito a ser conquistado. A mulher para alcançar seu lugar, ter reconhecimento e respeito tem muito mais trabalho em “provar” seu valor do que os homens. Ainda vivemos em um mundo com uma desigualdade de gênero gritante.

Falando da minha experiência pessoal, apesar de ser mulher eu ocupo lugares de privilégio, mas ainda assim já senti “pequenas” discriminações no exercício do meu trabalho. Quando eu vou fotografar manifestações, é comum que fotógrafos homens que, a princípio, não se conhecem se cumprimentem e troquem contato, enquanto a minha presença é completamente ignorada, não só a minha, mas também de outras mulheres fotógrafas. E eu também percebo que a quantidade de fotógrafos profissionais é sempre superior à quantidade de fotógrafas.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Eu acho que o primeiro passo é não ter medo de criar. Num segundo momento, acredito que é de extrema importância tentar buscar o autoconhecimento, perceber nossas habilidades e tentar descobrir nossa própria perspectiva diante do mundo que nos cerca. Entrar em contato com mulheres artistas também pode ser uma experiência incrível.

Bianca Moreira por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Como eu disse anteriormente, agora eu estou num processo de descoberta de novas possibilidades dentro da fotografia. Faço fotos ao acaso e nunca tive um projeto fechado. Para o futuro penso em abordar um tema e trabalhar exclusivamente nele, mas no momento ainda não tenho uma ideia muito clara do que virá a ser esse tema.

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