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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Bebel
Franco
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
50 anos . artista . designer

Sou formada em Moda, artista plástica autodidata e designer de estampas. Na moda nunca atuei, pinto desde os 24 anos de idade e entrei no mundo das estampas há 5 anos, diga-se de passagem que nunca criei estampas para moda.

Sempre, desde a faculdade de Moda e das Artes Plásticas as estampas surgiam, e sempre exuberantes em cor. Posso dizer que sou uma colorista, as cores são a minha grande paixão, é o que me move.

Além disso, sou uma flanadora, jazz maniaca e cinéfila. Carioca de coração, mãe de uma bailarina e de um cachorro dengoso.

Sou uma criança de 50 anos que esqueceu de crescer e que passa seus dias brincando com cores.

Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Desde sempre sou hipnotisada pelas cores, as lembranças que guardo comigo vem sempre acompanhada de cores, aquele dia no parque que eu estava com uma blusa amarela, ou se "lembra da conversa que tivemos naquela cozinha com uma parede verde?" "O mar estava mais azul do que nunca no dia que nos conhecemos…"

Estudei moda, fiz muita escultura em cerâmica, faço colagens, pinto e crio estampas, me visto e decoro a minha casa como se fosse uma extensão do meu trabalho e a cor foi e sempre será a minha ferramenta máxima de expressão.

Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

No momento em que me sento para criar, na maioria das vezes já sei o que quero fazer, e a partir daí quero chegar logo lá. Materializar o desejo. E isso é o que me motiva, chegar no impacto final. Isso me acelera. Quase sempre quando começo um desenho já sei para onde vou, não detalhadamente, não faço esboços e sempre vão surgindo ideias no decorrer da mão na massa, mas sei para qual lado quero ir. Então fico querendo trabalhar dias sem dormir para terminar logo e causar o impacto que estava buscando.

Esse impacto consiste em duas coisas, o colorido, me importa muito, as cores, grande parte do meu trabalho é chegar em uma gama de cor que me agrada, as cores vem sempre antes, e depois vem o caos, a soma das coisas que não param de vir, sempre sempre e sempre, sou uma acumuladora, e tenho uma imensa necessidade em organizar o meu caos, uso infinitas cores e elementos, o suficiente para embaralhar os neurônios, mas intuitivamente vou organizando tudo e isso me dá um imenso prazer. Uma estampa minha sempre se excede em elementos, muitas vezes em contrastes. Gosto de me referir a elas como um caos harmonioso.

E o que me inspira?

Minha inspiração vem do que me faz vibrar, no meio de tudo tem o que ao olhar meu peito bate mais forte e sorri. A minha inspiração vem das minhas empatias, como se fosse uma continuação de mim que eu desconhecia e ao me encontrar com elas vibro ao me sentir um pouco mais completa. Vibro aonde me reconheço de alguma forma. Eu sou muito observadora, estou sempre prestando atenção em tudo.

Olhando detalhadamente como se compõe tudo ao meu redor, as cores, os tons, estampas,  grafismos, a soma de tudo, o caos e o equilíbrio natural com que tudo convive entre si. O caos do centro das cidades, Avenida Rio Branco às 6h da tarde, sim, existe quem ama! Amo aquele mundaréu de gente, com suas cores, estampas, gostos. E o leque que cada pessoa daquelas significa, suas vidas, família, olho para elas e já desejo ver suas casas, quais suas escolhas de estofados, azulejos, de que cor são as paredes que acalentam seu dia a dia. Sempre desejei ao caminhar entre edifícios, poder atravessar todos eles, visitar seus lares e entrar nos seus cômodos, abrir armários e gavetas. Amo sobretudo imaginar o trançado da soma de todos os gostos. Um harmonioso caos das coisas como são. Sou uma pessoa acumulativa. Gosto de excessos. Da soma das coisas.

Sou toda uma boa bagunça, uma eterna mutante em busca de boas vibrações.

// Como é o seu processo criativo?

Ando sempre de olhos bem abertos, com uma câmera, um lápis e um caderno na bolsa, adoro ver revistas e livros e passo noites a fio no Pinterest, olhando, olhando, caçando aquele instante em que tudo em mim sorri ao ter um simples contato de olhar. Imagens nas quais as cores e composições me fazem bem. Vou somando, vou somando e um dia a soma deles transborda em mim, na minha casa em como me visto, em uma pintura, desenhos e estampas.

Na hora de começar um desenho, começo pelas cores, sempre as cores.
Uma vez que a gama de cor está mais ou menos determinada, entro nas formas, as formas e o acumulo delas, uma e outra e outra...

Mas o processo criativo em si é simples, o que determina ele é o momento que estou plena, toda inspirada, cheia de vontade de
materializar o meu desejo. Daí, tudo escorre sem barreiras, sai, simplesmente sai...

Bebel Franco por Projeto Curadoria
Bebel Franco por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tenho a sorte de ser dona do meu tempo, e sou bastante generosa comigo mesma, trabalho sem pressão. Faço meus horários, posso trabalhar 4h de manhã outras 4h a noite e passar o dia fazendo o que me dá na telha, ou trabalhar 12h seguidas, não há regras nem rotina, e acho que no meu caso isso me ajuda, o tempo pra mim é o bem maior, e ser dona dele me faz bem. Me dou muitos momentos de prazer, de fazer o que gosto, passear é o meu passatempo predileto, ou realmente não fazer nada, o famoso ócio criativo, é que minha cabeça sempre está criando ou pensando no criar dos outros, deitada no sofa, lá olhando para o nada, descansando, muita coisa nasce… tiro muitos cochilos sem culpa, para mim é importante descansar o corpo, esvaziar para retomar leve…

Bebel Franco por Projeto Curadoria
Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu trabalho preferido é criar estampas para mim mesma, para a minha marca Bebel Franco, sem direcionamento e monitoramento de ninguém, tendências, exigência de cores e elementos, ninguém me limitando. Faço o que quero, não existe nada melhor. Gosto de criar para os outros quando me é dada essa liberdade.

Quanto aos projetos, meus pessoais, nenhum concreto, apenas sonhos mirabolantes que com sorte um dia quem sabe eles se materializem

Bebel Franco por Projeto Curadoria
Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive um grande marco na minha carreira sim, foi quando o designer de móveis Fernando Jaeger me pediu para criar uma estampa para ele, ele gostou de uma pintura minha e quis que eu criasse uma estampa. Eu não sabia desenhar no computador e tive que pedir ajuda à um amigo. Sentada ao lado dele, no computador, ditando a estampa, entendi que tinha que aprender a fazer sozinha, porque no decorrer do desenho, surgem outras ideias, vontades, nada como a mão na massa, os improvisos e imprevistos, e ditar fica muito complicado, exige um preconcebido que não favorece nenhum trabalho criativo. Então, quis e tive que aprender as ferramentas para criar independentemente as minhas estampas, e aos 45 anos fiz aulas de Photoshop e Illustrator que jamais me imaginei capaz de aprender e me encontrei no mundo das estampas, foi definitivo na minha vida, tudo mudou, de repente aos 45 anos tinha uma nova profissão. Isso me deu muita satisfação, tanto o trabalho novo como o me descobrir capaz de me renovar.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho infinitos artistas que admiro há tempos e amo seus trabalhos, poderia citar alguns, mas os alguns são muitos. E tem os artistas que não conheço a fundo, mas vi algo deles em alguma exposição ou rede social, e não me aprofundei em conhecer mais o trabalho deles, nesse mundo acelerado, com as imagens pipocando a todo instante, você vive se apaixonando. E bem, eles não param de surgir, nascem a cada dia infinitos artistas com trabalhos incríveis.

Mas gosto em grande maioria dos artistas que lidam com o que eu lido, cores e acumulo, gosto em geral de trabalhos obsessivos que você percebe que houve muito trabalho manual, trabalho que tomou muito tempo para o artista materializar. Trabalhos detalhistas e complexos são os que mais me identifico. Mas não por isso, não me atraio por trabalhos menos barulhentos, gosto muito da arte conceitual e performances que fogem muito do meu mundo no modo como eles se expressam, mas ver um trabalho bem feito, seja qual linguagem for, me dá gaz.

Ah! E temos os inovadores... Ah, os inovadores esses eu endeuso, é tão difícil aparecer com algo novo.

Bebel Franco por Projeto Curadoria
Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Meu trabalho não é político nem intelectual, e em grande maioria só as mulheres se interessam por ele, os homens nem sabem muito bem que o meu trabalho existe.

Posso dizer que crio um mundo feminino para mulheres, logo, não sinto nenhum preconceito no que se refere ao meu trabalho. Mas sim, acredito que dependendo do teor do trabalho artístico as mulheres são mais supervisionadas do que os homens. Não pelo mundo das artes, mas pelo público mesmo.

Bebel Franco por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

O que me faz feliz no meu dia a dia é justamente fazer o que me faz feliz.
Não adianta saber que dançar te faz feliz se você não dança, e por que não dançar todos os dias?

Eu adoro escutar música bem alta, e gosto de ficar cantarolando quando escuto, escutar música alta me faz feliz, cantar me faz feliz, me mover ao som da música me faz feliz, então eu faço tudo! Eu desenho no computador escutando música pra valer, e meu corpo vai com ela, faço essas coisas sem pensar, e quando faço sinto como isso me faz bem.

Outra coisa que me faz bem é caminhar pelas ruas sozinha, o estar sozinha aumenta a tua percepção de tudo, porque não há influências nem distração, é você com você mesma. Não há semana que não tiro o dia para perambular pelas ruas, olhar, adoro olhar, são inúmeras as coisas que me fazem feliz, poderia passar o dia aqui listando, ouvir minha filha me faz feliz, beber água me faz feliz, falar com estranhos me faz feliz, colorir minha casa me faz feliz, me vestir cheia de cores estampas e mil acessórios me faz feliz, descansar me faz feliz, dar gargalhadas me faz muuuuuuuito feliz, ver filmes, estar com amigos, fazer analise me faz feliz. E olha, estou longe de ser uma pessoa feliz o tempo todo, sou uma pessoa de altos e baixos, altos muito altos e baixos muito muito muito baixos, acho que por isso mesmo prezo tanto a felicidade e procuro ela das maneiras mais simples e acessíveis.

Já no trabalho minha felicidade é colorir tudo! Colorir e alegrar. A minha paixão pelas cores e estampas e o efeito positivo que tem sobre os outros me move constantemente. Meu trabalho colore e alegra casas.

Gosto de me sentir sorrir e gosto de te fazer sorrir, gosto de imaginar o que as pessoas que se identificam com meu trabalho sentem ao se deparar com ele. Meu trabalho é para te fazer sentir bem, com animo, esperançosa. Há felicidade no caos!

Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

O que eu diria para qualquer ser humano de qualquer sexo: se entrega!

Não pense em agradar, trabalhe pra você mesmo, para se satisfazer, o trabalho criativo é uma conversa sua com você mesma, com o seu ser mais íntimo, ele é afetivo e pessoal, só você pode dizer o que você tem a dizer, não caia na armadilha do que está na moda, nas tendências, é claro que existe um inconsciente coletivo e uma necessidade do momento, mas traduza ele com a sua linguagem pessoal, um bom trabalho é aquele que você sente a paixão e entrega do criador.

Bem, aqui pensando, isso exige algo que é o bem mais precioso de todos, tempo. E a falta dele foi algo que atrapalhou a minha geração, não sei como isso se dá exatamente hoje, a mulher mudou muito, mas nós tínhamos menos tempo disponível que os homens, enquanto um homen podia se trancar 12 horas em um ateliê, nós não tínhamos esse luxo. As mulheres sempre tiveram dois trabalhos, o seu particular e o doméstico que também era seu e não menos prazeroso, mas dividia a carga horária que tinhamos disponível para fazer o nosso trabalho pessoal; me lembro de ter inveja dos homens e sua possibilidade de simplesmente se desconectar do mundo objetivo e prático que era resolvido por nós mulheres, como a rotina diária de manter a casa em funcionamento e a criação dos filhos.

Várias artistas mulheres antigamente optavam por não se casar dentro do que seria chamado um casamento convencional e muitas optaram por não ter filhos para poder se dedicar exclusivamente ao trabalho. Então, finalmente eu diria para as mulheres ainda presas nessa armadilha para correr atrás do que também por direito é delas, o tempo para si mesmas.

Bebel Franco por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Bem, como mencionei acima, nenhum projeto concreto em andamento, além de sonhos. Falemos de sonhos...

Adoraria fazer uma exposição só de estampas, o teto parede e chão com estampas, e móveis, muitos móveis por tudo que é lado, transbordando estampas, uma agradável poluição visual almejando o equilíbrio... Bem, vou parar com um sonho só mesmo, porque são muitos!

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