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Azuhli
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
22 anos . artista

Azuhli é a forma que eu, Luiza Veras, encontrei para me refugiar dentro da produção. O pseudônimo, que também é o anagrama do meu nome, concebe a liberdade artística desde a pincelada livre até o comprometimento com a desconstrução da pintura. Estudei Arquitetura por três anos e não conseguia me sentir tão completa como quando estou diante de uma tela em branco, me desafiando a pintá-la.

Azuhli por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A artista precisa do mundo como matéria de expressão. A ideia chega e precisa sair da nossa cabeça com cor, forma e plano, por isso não consigo imaginar uma produção que não esteja interligada com todas as mídias. Eu, por exemplo, me apoio na fotografia para composições dos quadros que vou pintar e na escrita para organizar todas as coisas que anseio colocar para fora o mais rápido possível.

Azuhli por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Lembro que minha primeira série de desenhos veio de uma vontade inexplicável de congelar uma parte das pessoas e eternizar aquele momento, tão cotidiano, em detalhes de uma pintura.

Hoje, vejo minha produção como urgência, ressignificação e apropriação do corpo humano. Os corpos, muitas vezes mutilados, trazem o questionamento do significado lúdico das "cicatrizes invisíveis sobre tela", como gosto de chamar, sentido esse que nos leva a apropriação de cada pequeno detalhe das obras. As deformações são os traumas, os gritos interrompidos, a dor que cada pessoa sente e não pode deixar esvair.

As matérias que falam de violência contra a mulher, o relato de amigas que vivem relacionamentos abusivos, a minha bagagem até aqui e tantas outras vivências que só a mulher sabe e sente. É sobre isso que fala minha pintura.

Azuhli por Projeto Curadoria
Azuhli por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Vejo minha profissão como qualquer outra, preciso de esforço, disciplina e estudo para conseguir alcançar o máximo dela. Transmitir os sentimentos para a tela não é tão fácil, né? É preciso muita coragem e conhecimento de si.

Preciso estar em conexão direta com o mundo, sabe? Minha cabeça só funciona assim. Tem época que preciso pintar todos os dias e passo mais de dez horas trabalhando dentro do ateliê, mas não é uma regra. Ah, se fosse! Cansei de forçar uma produção contínua, ainda mais se você trabalha sozinha, é preciso ter paciência e dar tempo ao seu próprio processo criativo.

Se você me visitar agora, vai perceber que tenho mais de cinco telas incompletas esperando que eu as re-visite e nos cavaletes tem duas grandes, as maiores que já pintei. Mas elas também precisam ter paciência comigo, sabe? Gosto de pensar que somos uma equipe, eu, meus pincéis, as tintas, o ventilador do ateliê, as telas em branco, as telas incompletas e minha cabeça.

Azuhli por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

No início, sentia que a maior cobrança vinha de mim mesma e até cheguei a pedir ajuda da minha mãe para pressionar que eu estivesse trabalhando por pelo menos seis horas por dia, mas isso não funciona tão bem quando sua profissão envolve o que você sente e como enxerga o mundo. Não é todo dia que consigo pintar, por exemplo, então limito uma parte do meu tempo para dedicar-me aos estudos, pesquisas, escutar um disco e até visitar uma exposição nova. Qualquer coisa que me leve para dentro da criação.

Teve uma época da minha vida que linha e cor não eram o bastante, troquei minha mesa digitalizadora por um piano elétrico. Passei meses tentando compor uma música, mas eu não sei nada daquilo. Sério, foram meses para me convencer que não é minha praia. Mas naquele momento, machucar as teclas do meu pianinho era minha forma de expressão mais sincera.

Azuhli por Projeto Curadoria
Azuhli por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As minhas fotografias! Mesmo que a pintura esteja presente na minha vida como trabalho, curto muito fotografar pessoas em movimento.

Azuhli por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

No começo, eu não imaginava que a arte poderia se tornar meu sustento financeiro. Aliás, poderia ser apenas um sonho, mas ano passado um marchand começou a vender meus quadros e isso me deu estabilidade para continuar produzindo. O Newton Whitehurst e Leonardo Leal (marchands), sócios do escritório de arte que me representa, fizeram toda a diferença na minha carreira e devo muito a eles.

A maior dificuldade da artista, até hoje, é se sustentar com o que faz. Conheço muitas pessoas que têm o trabalho riquíssimo e não conseguem trilhar uma carreira na arte, precisam de mais um ou dois empregos para “sustentar” o que faz feliz. Então, me sinto sortuda, sabe? Por ter pessoas como eles que cruzaram meu caminho e me ajudam.

Azuhli por Projeto Curadoria
Azuhli por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Olha, tudo que minha irmã me mostrava doze anos atrás ainda é minha inspiração até hoje, nomes como Matisse, Leonilson, Louise Bourgeois e Frida Kahlo estão sempre sendo re-visitados semanalmente por mim. Na minha cidade, Fortaleza, também tenho inspiração crescente na produção da Simone Barreto, Marília Oliveira, Rian Fontenelle e Guilherme Freire. São os que eu consigo citar agora, mas a lista é imensa.

Todos esses artistas, mesmo os que já não vivem, carrego comigo o tempo inteiro. Acredito na produção que é feita de referências, das mais diversas, pois é um caminho árduo e cheio de dificuldades.

Azuhli por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Um caso curioso, aconteceu em uma solenidade onde eu iria doar uma obra para a Casa do Ceará, em Brasília, e um dos artistas presentes ficou surpreso quando descobriu que sou uma mulher por trás das pinturas de mulheres nuas. Ele até tentou justificar que Azuhli remetia, para ele, a imagem de um homem velho e grande, que pintava mulheres nuas e cheias de cicatrizes. Como a pesquisa feita pelo coletivo Guerrillas Girls nos faz lembrar, 85% do conteúdo do museu é nu feminino feito por homens, mas só 5% do acervo é composto por artistas mulheres. Muito da minha produção é autorretrato e vejo o desconforto das pessoas quando encaram a artista da forma mais crua.

A artista mulher que representa o corpo feminino como ele é, e não da forma que o público encara como esteticamente aceitável, já é uma revolução sem tamanho.

Azuhli por Projeto Curadoria
Azuhli por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Quando alguém se identifica com a minha pintura.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Pesquisem mulheres. Ouçam mulheres. Conversem com mulheres. Leiam mulheres. Escrevam sobre mulheres. Assistam mulheres. Indiquem mulheres. Estejam cada vez mais perto de mulheres.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou preparando a minha primeira exposição individual, e no momento, internada dentro do ateliê. Quero que as pessoas sintam como é morar dentro de mim e emprestar meu olhar para elas, sabe? Sinto que é hora de compartilhar o que tenho feito e fico ansiosa para isso.

Azuhli por Projeto Curadoria
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