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Anie
Barreto
Brasil
vivendo em Maracanaú . CE
27 anos . artesã . bordadeira

Há mais de um ano me assumi artesã. Sou Anie, moro em Maracanaú - CE e tenho 27 anos. Comecei a bordar ponto cruz aos 14 anos com a ajuda de uma vizinha. Sempre achei bonito ver as senhoras lá da rua onde moro, sentadas na calçada tricotando ou bordando. Comecei a trabalhar cedo, então não tinha mais tanto tempo, e parei.

Desde a infância eu sentia algo muito bom ao estar no meio de aulas de dança, pintura ou qualquer linguagem manual. Entrar para o curso de Arquitetura e Urbanismo me deu a certeza que o criar entre ritmos, processos, erros e acertos era o que me enchia. Indo atrás de algumas linguagens, conheci a fotografia e o bordado livre, e comecei a estudar sozinha. Em 2016, tive a minha primeira encomenda de bordado e resolvi criar um espaço que envolvesse tudo que crio.

No mesmo ano entrei para uma turma de cerâmica e aprendi a lidar com a argila e hoje mesclo desenho, pintura, bordado e cerâmica. Trabalho na sala de estar de casa, e muitas vezes no quintal.

O Átomo se formou da vontade de ser, de tocar e que eu pudesse expandir as várias linguagens manuais que aprendi nessa viagem. É muito mais que uma loja virtual, pois significa todo o caminho que percorro na ânsia de conhecer mais sobre mim, sobre as coisas e sobre o mundo.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O desenho. Acho que o traço é algo que por si só diz muito sobre a pessoa, e apesar de ter aprendido isso muito tarde, por ser autodidata e aprender com erros e observação, hoje, vejo o quanto é mais fácil de lidar com ideias passando para o papel e com o tempo ir amadurecendo a ideia.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

As vivências, as pequenas percepções de uma rotina de alguém que não conheço. As lembranças da minha infância, a vontade de estar e ser, e, além disso, permanecer. A cidade e suas cores, ou a ausência dela. As ruas que passo todos os dias, e as pessoas que compõem a paisagem. A possibilidade de conhecer todas as Anies que existem em mim.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Sinto uma profunda alegria quando leio entrevistas de artistas que dizem que são disciplinadas, que possuem um local pra sentar e realizar etapas que criaram. Eu não sou assim. Eu tento. Inclusive, eu só tive conhecimento de que isso é possível e necessário há pouco tempo. Aprendi a maioria das coisas observando, perguntando, ou errando mesmo, então nunca tinha me atentado que eu precisava de um tempo para focar em algo. Então todas as ideias vinham de uma vez e eu queria fazer todas elas e isso acabava em várias coisas não finalizadas.

Conhecimento sobre si é algo que me inquieta muito, e de uns tempos pra cá, lendo mais e ouvindo pessoas que trabalham com linguagens semelhantes, tive a certeza que cada trabalho é como ter um filho. Respeito o tempo da ideia, e quando encontro a raiz do tema, leio, rabisco ou fotografo. Muitas vezes é o material que dita a forma e tempo. Aproveito essa liberdade pra conhecer mais sobre ele e para refletir sobre o tema que quero abordar. Sempre quando apresso demais o ciclo, algo dá errado, então aprendi a não ter pressa quando se trata de projetos pessoais.

Quando é algo mais profissional atendo as etapas: leio, anoto, rabisco, até a maturação da ideia, e só parto para a arte final ou produção do objeto quando ambas as partes estão satisfeitas: eu e o cliente.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento viver o mundo, conhecer novas histórias, andar por caminhos que nunca fui, ver fotografias de arquitetura, ver exposições novas e documentários. Mas também noto a cada dia como dar uma pausa tem sido mais benéfico pra mim. Estar em silêncio e observar as coisas tem feito meu coração disparar.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As minhas fotografias e os bordados que comecei a fazer recentemente dos locais da cidade onde moro.

Não sei qual o motivo exatamente, mas quando os vejo o sentimento que me causa é de pertencimento, de conforto.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sim! Quando decidi deixar Administração e começar a cursar Arquitetura e Urbanismo.

Eu fazia Administração para poder ser promovida, porém, tanto o trabalho como o curso me faziam mal. Arcar com as consequências de deixar um curso quase no final e ainda sair do emprego para poder cursar o que realmente queria me marcou muito, tanto pela coragem que eu tive que arranjar, como pelas marcas de dificuldades que isso me deixou.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Essa é uma das perguntas mais difíceis, por eu ter gostos e influências que começam no desenho a lápis, até a um projeto de arquitetura, porém eu tenho meus favoritos que são Matisse, Modigliani, Lina Bo Bardi, Ana Kras, Van Gogh e outros. Acho que essa mistura de tempos e linguagens algo positivo.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinto isso em relação à fotografia, quando preciso de uma indicação masculina para que meu trabalho seja visto com bons olhos. Mas acredito que estamos caminhando para uma transformação positiva. É meio lenta, mas percebo que isso vem melhorando diante da força e união da nossa voz, que tem ficado cada vez mais alta.

// E o que te faz feliz?

A vontade de continuar. A oportunidade de respeitar as coisas e a mim mesma, assim como as vivências e o poder que é ser e viver a cidade e tudo que é inerente ao ser.

Anie Barreto por Projeto Curadoria
Anie Barreto por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não parar. Tem época que a gente não vai gostar de nada do que faz. E essa parte é importantíssima. Nutra a inquietação. É ela que nos dá movimento, vontade de pesquisar, de ver outras coisas. Cultive sempre isso e não pare. Além disso, respirem o universo feminino: veja, leia, escreva, ouça mulheres.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou me preparando de todas as formas para tentar acrescentar minhas intervenções artísticas e manuais em vestuário. Será uma mescla de tudo que já faço, que é o bordado, a pintura e a cerâmica como adorno; mais a fotografia, a palha e a indumentária. Por enquanto tenho só muitas palavras e planejamentos, e o desejo enorme de poder sentir isso nas minhas mãos.

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