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Andréa
Tolaini
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
32 anos . artista

Sou uma moça complexa por dentro. Vivo de modo simples por fora. Queria que internamente eu fosse simples como materialmente eu consigo ser. Moro sozinha há 4 anos. Já me desenvolvi muito na minha solitude. O que faz o valor de estar acompanhada crescer muito. Quando estou entre outras pessoas eu me sinto parte. Integrada. Me sinto celebrando a vida. Compartilhando. Tento observar tudo e todos. Tudo será conteúdo para que eu me expresse. Gosto de ouvir as histórias das pessoas. Sou curiosa com a natureza da vida. Pois ela é minha matéria prima principal.

Amo ser mulher. Ter nascido mulher me deu o presente de ter conteúdo e argumentos para eu criar. É como se o fato de ser mulher justificasse o fato de eu ser artista. Então se me perguntassem porque sou artista eu responderia “Porque sou mulher”.

Por dentro vivo em ebulição. Tudo para mim tem importância e nada passa desapercebido. Tudo me faz sorrir e também meu choro é fácil. Sou pessoa de extrema expressão. E minha força está na expressão. Meu maior prazer na vida também é a própria expressão. Todas as formas de expressão genuína, verdadeiras e profundas me dão prazer. Não creio que chorar seja fraqueza. Nem que rir demais seja o mesmo. Extremas expressões me encantam. Se verdadeiras e originais.

Amo a vida pois ela me permite sentir. Sentir e escolher. Amo a vida porque ela me permite aprender.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu pinto em madeira com tinta acrílica. Eu desenho em papel com lápis, guache, nanquim. Eu faço colagens com plantas em vidro e uso tinta vitral. Hoje são estas as principais, mas a todo tempo eu renovo e encontro novas técnicas também.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A maior motivação que tenho para criar é ter nascido mulher. Ter tantas questões que envolvem o fato de ser mulher. Desde a natureza feminina que é tão linda, forte, expansiva até as questões sociais sobre ser mulher num mundo que oprime tanto o gênero. Em seguida a natureza da vida. Tudo que acontece e segue seu trilho. Tudo o que de forma orgânica se organiza e sempre leva a todos para o lugar de aprendizado, de crescimento. A natureza selvagem como espelho do que ocorre com a natureza humana.

Me inspira olhar os bichos e sua forma de encontrar maneiras de se relacionar. Me inspira a forma que os bichos se expressam sem ego. Que a natureza se move. Que as raízes, mesmo que fixas, encontram sua maneira de se nutrir. Como as plantas resistem ao asfalto. Como os humanos podem amar quem não conhecem. A compaixão. A coexistência me inspira. O fato de sangrar todos os meses. De poder gerar uma vida dentro do meu corpo, que depois também poderá gerar outras vidas. A perfeição e sincronia dos movimentos do amor. Como as relações humanas se formam. A forma que escolhemos nos relacionar.

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E principalmente o fato de, como humanos, podermos escolher. Escolher com quem e como nos relacionamos. Selecionar. Dizer sim e não. Esta é uma questão misteriosa para mim que ando pensando muito. Por que nascemos humanos? Por que podemos escolher? Por que podemos ter o critério do que é certo e errado? E será que realmente existe certo e errado? Por que podemos escolher não matar, não agredir, não estuprar? Por que não somos como os animais selvagens que não tem escolha e agem apenas por instinto? Por que viemos com este potencial de escolha? E tendo este potencial, por que escolhemos tantas vezes a degradação da vida? O desrespeito? A violência?

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// Como é o seu processo criativo? O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu observo tudo o que passa ao redor. Desde pernilongos que entram na minha casa, a planta que cresce a cada dia dependendo apenas da água que eu dou a ela, os olhares dos apaixonados na rua, a forma que os cães delimitam espaços, até as conversas das senhoras no brechó do centro espirita ao lado de casa.

Quando meus processos criativos se estancam dentro do meu circulo de convivência, eu viajo. Compro passagens aéreas no cartão. E saio da rotina. Me provoco. Tento viver coisas que não vivo no cotidiano. Busco conversar com as pessoas. Conversas que estimulem meus sentidos. Vou a lugares que nunca fui. Vivo aventuras. Me abro mais um pouco ao amor. Tento descobrir algo que não sei sobre o amor. Amo e faço sexo com entrega. E com vontade de aprender mais. E recomeço a busca por sentir mais verdadeiramente. Inicio novas amizades com pessoas diferentes do meu círculo de amizades. Vivo intensamente as relações.

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Então a imagem na cabeça já esta lá. As cores já estão lá na cabeça. Eu começo a criar e então estas imagens se transformam. Ganham mais conteúdo. Se justificam quando começam a ir para o papel ou para a madeira. As cores começam a conversar e pedir outras cores. Quando vejo eu criei algo que se originou de uma ideia que estava na cabeça, mas ganhou novas formas quando sentei para materializar ela. Busco estar perto da natureza quando possível.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Os meus trabalhos que mais gosto são aqueles que eu consegui utilizar a máxima potência da minha criatividade. Quando consegui expressar o mais próximo do que estava dentro de mim.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2009 a minha mãe faleceu. A partir deste momento minha vida se modificou muito. Minha forma de ver a vida mudou. Minha mãe era (e ainda é de certa forma) uma seta apontada. Eu tive muitas perdas em não ter mais esta referência, mas mais ganhos do que perdas. Com a morte da minha mãe passei a entender minha própria visão do mundo. Sem mais ter este filtro. Também comecei a buscar pelos mistérios da vida afim de entender mais sobre a morte da minha mãe. Por conta deste marco eu cresci muito. Me entendi mulher. Passei a entender meus próprios padrões de vida criados pela forma que minha família vive. Passei a escolher mais através de meu próprio senso.

Nestas escolhas, em 2011 eu abri mão da publicidade. Eu sou formada em Comunicação Social. Eu trabalhava numa agência digital. E com o tempo percebi que o que eu fazia não me fazia feliz e ocupava muito tempo da minha vida.

Foi uma transição difícil. Quando larguei a publicidade não tinha nada em vista, mas contas para pagar. Tinha vergonha de, aos 26 anos, dizer que não sabia ainda o que queria fazer da minha vida. Digo que precisei me perder para poder me achar. Nesta busca por mim, eu acabei indo morar em Londres. Peguei o dinheiro que eu tinha guardado e fui. Lá eu vi muita gente vivendo de seu próprio trabalho artístico autoral. Vendendo na rua. Se virando. Expondo em espaços públicos. Percebi que era possível fazer uma vida na arte.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gandhi para mim é uma de minhas maiores inspirações. Por ser um homem que escolheu o máximo potencial de sua comunicação para libertar. Sem violência. Criou uma forma de libertar um povo sem levantar um dedo. Me faz pensar que temos este potencial dentro de nós. Me faz querer observar mais a vida e aprender mais a escolher. Ter as melhores escolhas e atingir o máximo do potencial sobre ser humana.

As mulheres que abriram caminhos para nós vivermos melhor também me inspiram. Simone de Beauvoir, Frida Kahlo, Violeta Parra, Madona, Clarice Lispector, Elis Regina, Rita Lee.

Jesus Cristo também acho um cara inspirador. Pena que a história dele ainda é muito mal contada. Mas eu o imagino como Gandhi. Como um libertário. E Maria Madalena me parece ainda mais inspiradora. Pena que a história dela é tão mal contada. Mas eu sinto que Maria Madalena foi uma grande revolucionária.

Gosto também de Joan Miró. Gosto do fato dele conseguir ter resumido a arte dele em linhas, pontos, cores. E ainda assim não permitir seu trabalho ser chamado de abstrato apenas por ser minimalista. Acho que ele de certa forma traduziu o que ele buscava na vida: simplicidade.

Violeta Parra foi uma Chilena multi-artista. Uma mulher independente. Que unia pessoas em torno de sua arte. Me inspira a Violeta.

E as vezes eu fico pensando quantas histórias sobre homens que conhecemos (como de Jesus e de Gandhi por exemplo) e quantas histórias de mulheres estão ocultas. Ocultas porque a desvalorização da mulher é assunto bem antigo. Enfim.

E me inspira muito, mas muito mesmo, estas mulheres que estão por aí, cruzando a gente na rua e que trabalham, lutam diariamente, cuidam de uma família, casa, são fortes, lutam apesar das diversidades.

As mães me inspiram por sua força de amor. Por amar ao ponto de não abandonar. De amar ao ponto de grandes sacrifícios. De usar uma parte enorme da potência do amor.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinto que sim. Primeiro porque existe um preconceito imenso com a própria natureza da mulher. Contam uma história sobre mulher ser frágil e quando nos mostramos fortes rejeitam nossa força. Dizem ser loucura, ou masculinidade. Quando expressamos isso em arte há muito julgamento em torno. Eu observo pelo meu próprio trabalho nas redes sociais, o quanto predominantemente são mulheres que curtem o que crio. Mesmo que diga a respeito de natureza da vida. Humana. Mesmo quando desenho os homens. Mesmo quando me utilizo de geometria. Ainda assim são as mulheres que mais apoiam meu trabalho.

Sinto que há uma grande repressão sociais sobre a liberdade das mulheres. Desde os pelos que nascem, a amamentação pública, a nossa menstruação, as nossas formas físicas (estrias, gorduras localizadas, cabelo) até a forma que pensamos e as escolhas que fazemos.

Como nos meus desenhos, exponho muito sobre a natureza feminina, como menstruação, nudez, processos hormonais, emoções, nem sempre ela é digerida e aceita por todos.

Sinto inclusive, eu mesma reprimindo internamente minhas opiniões e muitas vezes abrindo mão de coisas para não ser julgada. Infelizmente isso ainda acontece. São vozes internas... sociais, familiares, masculinas, e de outras mulheres também, que vivem na minha cabeça e que obedeço de vez em quando.

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Eu realmente vivo o processo do que desenho e pinto. E me ajuda muito a conseguir escolher melhor, ser uma pessoa mais livre, o fato de eu me expressar. Me ajuda a me libertar e a permitir que eu seja o que sou essencialmente. Mas eu sinto a repressão tanto de dentro como de fora.

Percebo que o tema que eu abordo que as pessoas menos se manifestam em meus desenhos é a menstruação. Talvez isso cause nojo, talvez repulsa de alguma forma. Para mim é meu sangue e de onde eu vim. É o ciclo que me trouxe pro mundo. Tenho muito respeito a menstruação.

// E o que te faz feliz?

Eu amo pegar conchas na beira da praia. Me faz feliz ver os bichos que moram na minha casa correndo sem coleiras. Me faz feliz uma conversa profunda com direito a lágrimas se for preciso. Me faz feliz me abrir para minha sexualidade e descobrir novos prazeres. Me faz feliz mergulhar no mar. Me faz muito feliz amar um homem e me sentir amada. Me faz feliz também um vestido novo. Me faz feliz uma música que nunca ouvi e que ela toca meu coração. Me faz feliz conseguir criar formas a uma imagem que está na minha cabeça. Me faz feliz estar com meus amigos. Me faz feliz fazer as pessoas rirem de mim. Me faz feliz carinho na cabeça. Me faz feliz que mexam no meu cabelo. Meus sobrinhos rindo. Me faz feliz quando as flores aqui de casa abrem. Me faz muito feliz viajar para um lugar novo. Me faz feliz conhecer pessoas que tem uma vida diferente da minha. Me faz feliz poder abraçar. Me faz feliz a cor turquesa e esmeralda. Me faz feliz aprender uma coisa nova. Entrar no avião também. E me faz feliz quando venta e esta muito calor. Me faz feliz quando chove e fica aquele cheirinho de água. Me faz feliz bolo e café com uma boa companhia para papear. Me faz feliz ser admirada pelo meu trabalho. Me faz feliz quando eu olho no espelho e me sinto bonita. Me faz feliz caminhar na rua. Eu amo dirigir na estrada ouvindo música. Me faz feliz ter as minhas amigas sempre por perto. Tem uma árvore de romã na minha casa que também me faz feliz. E uma primavera também. Aliás, quando entra a primavera eu me sinto muito feliz. Me faz feliz dançar. Sair para comer uma coisa gostosa. Saber que alguém está grávida. Assistir um filminho abraçada. Me faz muito feliz sair para tomar sorvete. Me faz feliz o barulho do mar. Me faz muito feliz ver meu trabalho voando por aí, sendo reconhecido e compartilhado. Me faz feliz conseguir pagar minhas contas com meu trabalho. Me faz feliz aprender algo novo sobre mim.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações ?

Eu acho que começar criando uma Mandala é bem interessante. É uma arte acessível e ajuda muito a abrir os caminhos da criatividade.

Mas conseguir se conectar com a própria natureza, observando seus ciclos hormonais, menstruais, tendo uma vida sexual saudável, reservando sempre um tempo para estar sozinha, buscando estar perto de pessoas que estimulem e não tentem minar a sua criatividade, buscando se expressar, falar de seus sentimentos profundamente, e viajando... pegando uma mala e saindo por aí.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Acabei de abrir minha lojinha virtual o www.andreatolaini.com e também ando buscando concentrar meu trabalho no meu perfil pessoal do Facebook e no Instagram @andrea.tolaini

Este mês está saindo uma série de vídeos curtos sobre meu trabalho produzidos pelo Rodolfo Lacerda. Serão três capítulos e eu irei publicar nas minha redes.

O primeiro você pode ver logo abaixo:

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