m
Andréa
Orue
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
33 anos . artista . bordadeira . artesã

Olá! Eu sou a Andréa Orue e sou uma artista têxtil que nasceu e viveu sua vida toda em São Paulo e tenho um ateliê chamado Primavera de 83.

Desde pequena sempre quis entender o porquê de tantas injustiças, tanta desigualdade social e, assim, fui estudar Ciências Econômicas no Mackenzie, e segui por um caminho que me levou até a pesquisa econômica, com foco em meio ambiente e políticas públicas, depois atuei em empresas privadas na área financeira e comercial, onde esgotei todas as possibilidades de atuação.

Deprimida com a morte de pessoas próximas a mim, término de casamento, um trabalho onde eu ganhava bem mas não tinha vida me permiti um ano sem trabalhar. Não havia me programado direito, então um ano depois eu voltava a ter um emprego fixo, que não durou nem um ano. Nessa época já estudava muito crochê e tricô, pois achava que seriam minhas atividades principais, e usava o bordado como um escape da realidade, quase um desabafo. Uma reviravolta inesperada tornou o bordado como minha atividade principal.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Na Primavera de 83 bordado livre, ponto cruz, crochê e tricô são minhas atividades principais – pessoalmente eu sei costurar, encadernar e cozinhar bem. Esse ano tenho me dedicado a estudar desenho, mas não me considero uma ilustradora tradicional, uma vez que desenho pensando exclusivamente em criar texturas através dos bordados – e não com canetas, lápis ou tinta.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Uma vez li sobre motivação, onde dizia “A disciplina é confiável, a motivação é fugaz” e te digo que desde então minha visão sobre motivação mudou: não existe motivação, o que existe é disciplina. Enquanto artista é óbvio que gostamos quando alguém elogia um trabalho nosso, existe aí uma motivação para criar-se mais, mas não podemos esperar elogios ou likes para continuar o processo investigativo que é o processo artístico.

Esses dias fiz um bordado cujo título é “Truth Hurts”, ou a verdade dói, e uma aluna disse que quando viu chorou, porque refletia um momento da vida dela também. Claro que essas coisas acontecem e sim, acabam me motivando a criar e seguir em frente, é uma resposta importante sobre o meu trabalho.

Todavia sair da zona de conforto na hora de criar é importante, arriscar, independente de likes. O que eu quero dizer é que não se pode esperar apenas estímulos exteriores para se criar, deve-se criar o tempo todo.

Dizer que tudo me inspira é um super clichê, mas é real. Entretanto as coisas que mais me inspiram são literatura, em primeiro lugar, cinema, música e a reflexão sobre processos de dor e cura.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Tenho um livro de anotações. Anoto tudo ali. Tudo. Palavras que li num livro, ouvi numa música, citações de filmes. Sou muito introspectiva e esse processo me leva a criar. Estar sozinha me motiva a criar.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
Andréa Orue por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento fazer atividades não relacionadas a arte têxtil: meu cinema semanal é sagrado, ler todos os dias é quase um ritual e, quando vejo, tive várias ideias. Mas o criar sempre traz novas criações, é quase uma catarse de ideias, quanto mais se cria uma disciplina em criar, mais acaba-se criando, no meu caso.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Todos os anos eu seleciono os principais bordados daquele ano que fiz pela Primavera de 83 e faço um calendário impresso em papel para o ano seguinte. A cada mês eu acabo olhando para aquele bordado e pensando em tudo que vivi naquele momento de criação, no que pensei enquanto bordava, no que poderia ter sido feito, e no que posso fazer no momento presente.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Existem alguns marcos sim. O primeiro foi quando fiz um trabalho enorme em crochê para o 13 Pompons, peguei a grana, fiz um site, uma loja virtual, lancei o primeiro calendário da Primavera de 83. Lancei pro universo, sem saber muito como as coisas seriam dali em diante ou o que eu esperava. Nessa época ainda trabalhava em parceria com meu irmão, e no mês seguinte fomos convidados a dar aulas no Sesc e desde então não parei mais, já dei aulas de bordado em quase todas as unidades de São Paulo.

O segundo foi criar uma série de bordados gigantes, ou maxi bordados; fomos os primeiros a fazer esse tipo de bordado no Brasil. Eles ficaram expostos durante um tempão na UFPR, e depois retornaram pra gente. No início do ano meu irmão passou a se dedicar somente à tatuagem e eu segui com o bordado.

O terceiro foi no ano passado, quando decidi também que era importante ter um local para dar aulas e criar, aluguei o primeiro ateliê da Primavera de 83. Esse ano precisava de um espaço maior e agora estou em uma casa inteira dedicada ao ensino das artes têxteis e produção de peças autorais, esse sim um grande sonho realizado.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho uma infinidade de pessoas que poderia citar aqui, da literatura, da música, das artes têxteis, da vida. Amo de paixão Louise Bourgeois, Tracey Emin, Kathleen Hanna, Sylvia Plath, Patti Smith como cantora e escritora, Zelia Gattai, Rosa Luxemburgo, Carolina de Jesus, Djamila Ribeiro, Juliana Cunha. Gosto de quem mexe com arte têxtil, mas que também experimenta outras técnicas. Adoro os trabalhos da Rosana Paulino, Cami Belô, Giselle Quinto, do Julian Campos, Ana Requião, Sarah Lopes, Cris Bertoluci, Helen Rodel, Lane Marinho, uma galera que está fazendo os corres têxteis há algum tempo já, aqui no Brasil. Além desses, tenho um apreço pelos clássicos: Virginia Woolf, Jane Austen, Schiele, Monet, Edgar Allan Poe, Degas, Matisse.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Uma vez eu postei um bordado que demorei 40 horas para fazer, lindíssimo, um desenho do meu irmão Thiago Yoshi, e eu perdi as contas de quantos seguidores perdi naquele dia. A arte só é bonita quando se retrata o belo, o recatado e o do lar, e ainda devem ser brancos. Isso foi um caso claro de racismo, mas há também casos onde eu posto algo provocador, como direito ao aborto, e perco mais seguidores. Isso não me intimida, eu sigo criando e anseio pela liberdade de criação acima de tudo.

Meu trabalho hoje não é mais com foco em economia e desigualdades sociais, mas se eu não puder trazer essas provocações então minha arte não serve pra nada. Em tempos sombrios é preciso estar atento.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
Andréa Orue por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Doses diárias de felicidade. Poder trazer minha cachorra pra trabalhar comigo no ateliê da Primavera de 83 (ela que está velhinha, tem 13 anos, e cada dia a mais é um alento no meu coração), poder fazer uma pausa com café no meio da tarde, ver minhas alunas entendendo e respeitando a arte têxtil não como algo menor, mas como um grande motor, poder ser livre pra criar no meu ateliê e receber pessoas queridas, tudo isso me faz feliz.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não esperem aprovação, criem. Não esperem o cenário ideal, ele não existe. Não espere ter muitos seguidores ou likes para seguir criando, crie independentemente disso. Seja honesta consigo mesma, com sua arte, as pessoas percebem a paixão que é colocada ali.

Andréa Orue por Projeto Curadoria
Andréa Orue por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Dia 11 de Novembro vou abrir o ateliê da Primavera de 83 pela primeira vez para vender minhas criações em bordado, crochê e tricô. Estou fazendo uma nova série de bordados cujo título é Autorretrato, série super importante nesse momento da minha vida, no meu novo ateliê. Estão todas convidadas!!

COMPARTILHE
b
//+entrevistas