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Andréa
Dall’Olio Hiluy
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
40 anos . arquiteta . artista

Sou arquiteta atuante e professora universitária, tendo desde cedo vislumbrado a possibilidade dessa profissão me manter dentro da arte, uma vez que à época do meu ingresso na faculdade, não havia em nossa cidade uma faculdade de Belas Artes. Desde tenra idade tenho proximidade com as artes, seja como espectadora assídua de museus ou pelo frequente ingresso em cursos de técnicas diversas que me ampliaram o espectro de atenção e interesse, orientando um caminho de estudo autodirigido que acabou por me impulsionar cada vez mais para dentro da arte. Com o contato próximo à classe artística, o inevitável percurso para uma segunda profissão, tornando a prática artística mais profissional fluiu espontaneamente e de forma plena. Não posso esquecer o quanto a docência nos últimos anos me impulsionou para o lado lírico da arquitetura, que tem limite muito tênue com a arte.

Sou muito curiosa e gosto de aprender. Tenho muita determinação e disciplina. E considero que meus trabalhos artísticos tem a capacidade de criar diálogos com seus observadores, vitimando a minha timidez em falar de mim e expondo um crucial relato narrativo da minha interpretação de sentimentos e relações com as pessoas e o mundo.

Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Pintura com técnica mista, gravura e bordado se fundem em meus trabalhos. Gosto de testar suportes diversos, desde os tradicionais à utilização de materiais comuns à vivência da arquitetura, tais como revestimentos cimentícios, madeira, massa e cimento, bem como materiais usados para a limpeza, como variedades de panos e sacos de entulho. Gosto de reaproveitar os “restos de obra”, me aproveitando da energia guardada e a história vivida destes materiais, que me mantém em constante permeabilidade com a arquitetura. No desenvolvimento e criação dos projetos arquitetônicos e na vivência da execução da obra estrutural em si, vejo arte em tudo, mesclando de lá pra cá e de cá pra lá o meu interesse pelo fazer artístico.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A apreciação da arte parece, para mim, ser algo congênito, um dom ou uma inspiração que faz parte de toda a minha vida. Há coisas que não sabemos explicar, mas apenas sentir... Mas a minha maior motivação para criar é o desejo de espalhar a arte, certa de seu poder no bem estar e alegria para qualquer pessoa que dela tenha a oportunidade de se aproximar. Sempre gostei de apresentar a arte para as pessoas, sempre foi assim.

O que me inspira é o meu cotidiano, desde a rotina em casa, o trabalho, as viagens, a observação, superficial ou mais íntima, das chagas da vida de cada pessoa que convivo ou simplesmente vejo passar. É deste cenário que removo os materiais utilizados e me inspiro para criar expressões ou máscaras que marcam firmemente meu trabalho artístico.

Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo não é estanque. Ele é permanente, mesmo na urgência de tantas coisas do dia-a-dia. Este processo criativo pré-existe e continua após iniciado o trabalho, reflexo de situações cotidianas. Tudo se inicia em desenhos que vou fazendo aleatoriamente, em cadernos ou papéis soltos, por vezes amassados e que às vezes ficam jogados pela casa, sem apego. A partir destes croquis, escolho o material e técnica para explorar aquele tema e procuro utilizar uma identidade de cores e materiais que expressam simplicidade. A escolha dos materiais e suportes também é fortemente influenciada pela minha curiosidade de revelar o resultado final naquela particular escolha de transformar materiais cotidianos em objeto artístico.

Quando o fazer artístico se inicia, pode levar dias para ser finalizado, a depender da técnica utilizada, o que pode exigir longo período de secagem dos materiais no suporte ou longas horas demandadas pelos fios e linhas. Porém, às vezes um trabalho é explosivo e pode ser finalizado em pouquíssimas horas. Não há uma regra e, sem dúvidas, os sentimentos interiores me impulsionam durante o processo criativo, acelerando e solucionando uma obra.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Estudo, estudo e vejo arte em tudo. Crio conexões de possibilidades de uso de materiais. Por exemplo, uma loja de materiais de construção e um armarinho são um grande ateliê de processos criativos. Eu gosto de ver estes materiais se transformando em objetos artísticos.

Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Três trabalhos são significativos e preferidos para mim: O trabalho Sudário, realizado em panos de chão, com pintura e linhas, apresentado no 68º Salão de Abril, em Fortaleza, neste ano de 2017; O trabalho Carbonizatto, em técnica mista sobre tela, utilizando pano de chão como um produto carbonizado, resultado alcançado com uso de tintas; e o trabalho Ela, em pintura com técnica mista sobre tela, representando o abstracionismo que revela uma face feminina. Estes trabalhos são significativos pois simbolizam a diversidade de materiais e técnicas que conjugam o meu processo criativo, no qual permuto as funções originais de um material para outra. Por exemplo, gosto de utilizar matéria primária para dar cor, como o café, presente em todos os meus trabalhos, e os pigmentos naturais; como a utilização das linhas ao invés de lápis ou tinta, ganhando espaço na definição das imagens, substituindo o desenho e a pintura; e a utilização de materiais de limpeza (como os panos de diversos materiais e funções) ou utilitários (como sacos de diversas naturezas). Esta seleção representa muito bem a alquimia que venho experimentando. Além disto, traz a influência do rosto feminino que é constante no meu trabalho. Minhas influencias são sempre a mulher, e mesmo quando eu pinto um rosto masculino este representa a expressão mais forte da mulher, seu lado yang.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

É um processo gradual e longo, com investimento de tempo e recursos financeiros, a partir do momento em que passei a priorizar as visitas às lojas de materiais artísticos, além das galerias e museus, durante viagens. Conhecer novos materiais e de melhor qualidade, que se transformaram em souvenirs, facilitou a transgressão do amadorismo para o profissionalismo, em algum momento.

Em certo momento, o artista e amigo Gerson Ipiraja me convidou a participar do Coletivo In-Grafika, um grupo de artistas gravuristas unidos pelo ofício da gravura e com a intenção de pensar sobre as possibilidades que a gravura tem, além de expressão regionalista. Uma força de movimento de resistência contra o isolamento e esquecimento da gravura e com o intuito de fortalecer sua inclusão dentro da contemporaneidade, sem perder o compromisso da ética da gravura. Gerson Ipiraja foi a mão estendida e o olhar sensível que me transportou de um lado para o outro.

Viabilizei um ateliê em casa e a produção mais frequente e de melhor qualidade passou a ser apresentada nas redes sociais como uma vitrine. Passei a postar cada obra finalizada, e fui percebendo empatia de amigos e seguidores. Finalmente fui vista pelo amigo e Marchand Newton Whitehurst, que me convidou para fazer parte da sua seleção de artistas do Menu das Artes, o que me orgulha e me alegra, tornando-se um estímulo à produção.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Leonardo da Vinci, Picasso, Van Gogh, Mondigliani e Pollock são na verdade os grandes mestres de inspiração, me fazendo transitar desde o Renascimento até o Expressionismo Abstrato. Porém, minha influência direta vem de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, que impressionam pela capacidade de abstração da representação da figura humana e Antônio Bandeira, pela profundidade das camadas de onde se extraem as imagens.

Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Nunca senti, mas sei que existe e pode ser velado dentro da minha realidade. Porém nunca percebi qualquer tipo de preconceito por eu ser mulher.

// E o que te faz feliz?

Poder viver as minhas escolhas.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Estudo, prática e determinação. O processo criativo dentro da arte é muito solitário, mesmo que se faça dividindo-se com outras pessoas. Mas o convívio e diálogo sobre a arte contribui sobremaneira em direção a novas descobertas e à solução e finalização de um processo criativo. O olhar do outro e o compartilhamento do caminho pode ser frutífero, sobretudo se houver admiração mútua.

Atualmente estou dividindo, com a artista Azuhli, o Ateliê das Duas. É um momento semanal em que nos encontramos para falar e fazer arte, numa simbiose engrandecedora e enriquecedora para os processos criativos e a interação com o olhar do outro.

Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
Andréa Dall’Olio Hiluy por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

A replicação do trabalho Sudário em 108 unidades, a ser exposto como instalação ao ar livre e em espaço público, como uma oferenda de agradecimento ao universo.

Este projeto baseia-se nas minhas práticas e conhecimentos dos preceitos budistas. Quando os monges se reúnem para práticas e rituais, costumam escolher locais públicos e ao ar livre para que o vento aumente a vibração e a energia dos cantos, permitindo sua dissipação e maior alcance. A quantidade de 108 vezes é utilizada como a representação do infinito e utilizada como número de repetições para a recitação de sequências de mantras, sendo considerado um número sagrado e que representa o tempo passado, presente e futuro.

Numa analogia, a exposição de 108 panos de chão, com expressões faciais diversas e de várias características étnicas, terão a força motriz do vento a balançar e aumentar sua energia de espalhar arte. Significa ainda o meu agradecimento à minha ancestralidade, aos meus conviventes e ao meu futuro.

Este trabalho conflui todo o meu sentimento posto na #vamosespalhararte, sempre usado em minhas postagens e conversas sobre a arte.

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