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Anália
Moraes
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
23 anos . artista . ilustradora . ceramista

Nasci em São Paulo mas cresci no interior, na cidade de Leme. Lá fiz um curso técnico em Comunicação Visual que abriu meus olhos para o caminho das Artes Plásticas e da ilustração.

Voltei correndo pra São Paulo quando terminei o ensino médio e após trabalhar como assistente do artista Stephan Doitschnoff, com quem fiz uma residência artística na Chapada Diamantina, na Bahia, ficou ainda mais claro a minha decisão de ser artista.

Comecei vendendo minhas obras sob encomenda e fazendo freelances de ilustradora, além de participar de feiras com artistas independentes e pequenos produtores.

Atualmente, sou co-fundadora e artista residente da Casa Dobra, minha empresa com meu parceiro Daniel Wood, e somos um ateliê de arte e produtora de conteúdo audiovisual de São Paulo, além de ser graduanda em Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

São tantas! Vou do lápis e papel, da tinta e tela, ao barro da cerâmica, madeira de caçamba, gesso... Sempre pirei em explorar de tudo para chegar num resultado plástico interessante e ultimamente, principalmente por causa da faculdade, tenho tido experiências absurdas de boas, inclusive com arte digital que não era nem um pouco a minha praia.

Acho válido para o desenvolvimento de qualquer artista essa experimentação. Toda exploração artística é uma metáfora para uma exploração interna e do mundo, é aventura e me impede de criar caixas de "devo/não devo" ao redor de mim mesma.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha maior motivação é o processo de criação em si, antes de qualquer coisa. A inspiração não é algo divino, é algo construído através da educação do nosso olhar e das nossas vivências, portanto, tudo é válido através da lente de quem cria. Pode ser o processo de um artista que eu admiro, uma receita de comida ou o meu próprio crescer, a minha evolução como mulher, artista e indivíduo.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Depende muito do projeto! Basicamente tento sempre anotar e rascunhar meu fluxo de pensamento, com a ajuda de uma boa pesquisa visual, textos, e testar a paleta de cores logo no início me ajuda a visualizar também.

Parece sacanagem contemporânea, mas o processo é tudo e nele é onde eu tento resolver as bases da criação para sofrer o menos possível na execução. Com um desenho, linhas, formas, cores e intenções bem resolvidas a parte do fazer em si se torna mais leve e com mais chances de se aproximar daquilo que imaginei, até porque expectativa é uma droga, né?

Anália Moraes por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

O dia a dia realmente não facilita, mas busco reconfigurar e abstrair - no sentido de afastar mesmo - as formas e padrões da vida cotidiana.

Desenhar sem compromisso, ver filmes e vídeos, ir a exposições e sair da minha zona de conforto ajuda muito. A vida é o próprio processo de criação e é necessário tempo para digerir suas informações e signos, por isso é essencial analisar e guardar tudo que me chama atenção porque isso é definidor para nortear a criatividade.

Quando estou bloqueada faço alguns desenhos automáticos, método Surrealista que tem a intenção de despertar o inconsciente, ausentar a razão e as neuras estéticas, nos deixando menos racionais. É um exercício que me liberta o traço e a cabeça para iniciar ou focar em algo.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Todas as criações da Casa Dobra para o projeto Naked Lady, da OHK! cujo processo foi extremamente empoderador para mim como artista e mulher. Outro trabalho, mais recente, foram as ilustrações para a caixa da Glambox para o dia internacional da mulher pois o resultado foi esclarecedor sobre como eu gostaria de ilustrar. Acho que o que faz eu gostar muito desses dois é pelo alinhamento entre tema - que são intrínsecos à minha vida -  liberdade criativa e autoconsciência que me proporcionaram.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2016, ilustrei a capa e o interior do livro "Mas você vai sozinha?" da Gaía Passarelli, e foi definitivamente marcante! No começo acreditava que não estava pronta, que não tinha experiência suficiente, aquele buraco negro todo! Mas mergulhei de cabeça e foi algo que me validou como ilustradora para mim mesma. Esse papo de validação é complicado para quem cria pois há um eterno conflito artístico, acredito. Mas passar meses mergulhada num projeto, vê-lo tomar forma e ter o companheirismo de todxs envolvidos foi um aprendizado maravilhoso que carrego em tudo que faço.

Também não poderia deixar de citar a Casa Dobra cuja criação é o marco mais importante da minha vida até agora. É o lugar que criei junto ao Daniel para colidir com o exterior, dar vazão aos nossos sonhos, onde eu aprendo todo dia a olhar pra dentro, a evoluir e a encontrar meu lugar no mundo.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Acho que essa lista muda toda semana, principalmente dependendo do projeto/trabalho que estou fazendo. No momento, não consigo superar o trabalho do artista brasileiro Ernesto Neto, e uma frase dele anda permeando tudo que eu faço desde o início do ano: "Às vezes, achamos que a arte é um problema de espaço. Mas eu acho que é uma questão de tempo. Tempo de existência."

A minha interpretação da frase é uma reflexão sobre como trazer à claridade o choque de impressões e o tempo de existência da tensão, da execução e maturação e absorção das coisas do mundo.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim e sim. No meu trabalho o mansplaining é o mais frequente não só pelo fato de ser mulher mas pela minha idade também, acredito.

É inegável que o mundo da arte ainda é extremamente sexista e por isso é urgente a reflexão sobre o espaço ocupado por mulheres na arte que não seja o da figura ideal e nua pintada em uma tela, seguindo a referência das magníficas Guerrilla Girls.

// E o que te faz feliz?

Além do meu trabalho, meus gatos, receber amigos em casa, cozinhar e alimentar todo mundo com a minha receita de nhoque e ir na Pinacoteca de São Paulo num domingo de manhã e ficar lá o dia todo, só absorvendo tudo aquilo.

Anália Moraes por Projeto Curadoria
Anália Moraes por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não esquecer que viver de arte é entrar em confronto consigo mesma o tempo todo, é se duvidar, ter medo e muitas vezes exige que você saia da sua zona de conforto. Mas o principal e o mais difícil que esse trabalho exige é olhar pra dentro de si, o tempo todo, e estar disposta a aprender com os erros e frustrações que os processos e o próprio mercado impõe. Então a minha dica é compreenda muito você mesma e absorva o que conseguir do mundo, escute o seu corpo e a sua mente, escolha um caminho e tenha coragem.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou explodindo de animação com uma nova collab que será lançada no início de junho, mas que ainda não posso contar muitos detalhes sobre, só que envolve a cerâmica de uma maneira ainda não explorada aqui no Brasil. Já já soltaremos um teaser na page da Casa Dobra!

Estou explorando uma nova linguagem como meu último projeto da faculdade que envolve pintura, desenho, escultura e vídeoarte, uma doidera maravilhosa! Dá pra acompanhar um pouco do meu processo no meu Instagram pessoal.

Também, desde o início desse ano comecei a dar aulas e oficinas de cerâmica. Poder compartilhar um pouco do meu processo tem sido um aprendizado incrível pra mim também, é um novo trabalho e espero que essa troca evolua cada vez mais. Para saber mais é só acompanhar a página da Casa Dobra no facebook.

Anália Moraes por Projeto Curadoria

FOTO DO PERFIL/DIVULGAÇÃO POR NAIRA MATTIA

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