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Ana Paula
Zonta
Brasil
vivendo em Porto Alegre . RS
32 anos . designer . ilustradora

Não posso dizer que sempre desenhei, apesar das coisas feitas a mão sempre estarem presentes na minha vida desde muito cedo. Até eu fazer cinco anos de idade, quando meu irmão nasceu, eu vivia com meus pais, meus avós e meus bisavós numa casa no interior de uma cidade já pequena da Serra Gaúcha. Não tinha primos da minha idade e não tinha crianças na vizinhança. Pode parecer uma infância solitária, mas eu adorava passar os dias no quarto da minha bisavó Joana que era costureira e artesã, inventando brincadeiras com retalhos de tecido. Alguns anos mais tarde, lembro que passava as manhãs fazendo atividades que via nos programas de tv pra criança, que envolviam muito papel, cola, fita e tintas, nunca tinha todos os materiais que precisava, então ia adaptando com as coisas que tinha em casa.

Na adolescência fui me afastando do desenho, gostava mesmo era de ler e de assistir filmes. (Sad fact: não existia cinema na minha cidade nessa época, tudo que eu via era em VHS ou na tv aberta)

Acabei me formando em publicidade, mas sempre trabalhei com design gráfico. O desenho voltou a aparecer na minha vida depois da faculdade, meio como uma brincadeira. Comecei a usar algumas ilustrações que fazia nos meus trabalhos de design e a fazer outros desenhos mais autorais que não tinha coragem de mostrar para as pessoas, ia ficando nas minhas gavetas. Em 2012 resolvi viajar e aproveitar pra explorar outras técnicas de desenho. Passei seis meses em Londres fazendo alguns cursos e aproveitando o tempo livre pra desenhar. Aos poucos fui perdendo a insegurança que sempre tive, e foi em uma biblioteca de lá que dei um passo maior. Duas meninas de uns 13 ou 14 anos pararam pra me ver desenhando e ficaram super encantadas com o desenho que eu estava fazendo. Era o desenho do Sam, do filme Moonrise Kingdom, elas não conheciam o filme e anotaram o nome pra assistir. Achei muito legal a reação que o desenho causou nelas e os seus elogios me deram coragem pra postar o desenho no Instagram. Desde então não parei mais.

Quando voltei para o Brasil comecei a desenhar pra valer e criei uma marca pra abrigar o meu trabalho como ilustradora, a Anaiaiá. Hoje moro em Porto Alegre e, além de cuidar dos projetos da minha marca, sigo trabalhando como designer freelancer.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu uso bastante canetas de nanquim e marcadores, costumo misturar técnicas, às vezes começo desenhando no papel e finalizo no computador. Também, gosto muito de xilogravura, apesar de não produzir tanto quanto gostaria.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu vejo muitos filmes e acompanho mais seriados do que deveria. Como gosto de fazer retratos, eles acabam sempre sendo uma fonte de inspiração.

// Como é o seu processo criativo?

Com trabalhos comissionados ou de design, é bem raro eu estar de bobeira e ter uma super ideia. Nesses 10 anos trabalhando com comunicação (e com prazos malucos!) percebi que o melhor pra mim é começar a fazer e ir fazendo. Eita, tá uma bosta! Segue fazendo, muda, começa de novo. Assim a coisa vai tomando forma e acontece.

Com trabalhos autorais, onde não tenho prazo, o processo é mais tranquilo e pode levar dias ou até semanas. Tenho uma ideia, que pode vir de uma conversa, uma música, um filme, uma fotografia, ou de qualquer coisa que eu tenha visto na rua, anoto a ideia ou faço um rascunho rápido, e quando tiver mais tempo ou vontade, finalizo o desenho e decido se vai virar uma xilogravura, uma print ou se vai ser aplicado em algum produto. Gosto dessa liberdade de poder produzir quando eu estiver a fim.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Costumo ficar atenta aos estímulos visuais, cores, estampas. Tenho micro ideias gráficas o tempo todo, mas raramente anoto e acabo esquecendo depois de minutos. E, claro, estar sempre pesquisando outros artistas de diversas áreas sempre é inspirador.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tem vários. No último mês de outubro, eu participei pela primeira vez do Inktober, onde a proposta é postar um desenho por dia durante todo o mês. Minha temática foi personagens de filmes e seriados, obviamente... hehe... Fiquei super feliz de ter conseguido fazer os 31 desenhos, provei pra mim mesma que, mesmo em dias super corridos de trabalho, dá pra separar uns minutos pra desenhar.

Outro trabalho especial pra mim, foi fazer os materiais de comunicação para o casamento de uma amigona. Desenhei o casal e seus bichinhos de estimação para o convite. Adorei ajudar, mesmo que com pouquinho, nesse dia tão especial pra eles.

Além desses, também sou muito apegada aos desenhos que fiz da minha família, eles viraram uma parede de retratos na minha sala.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tomar coragem pra começar a mostrar meus desenhos, certamente foi muito importante, fiquei mais segura com meu trabalho e até com outras coisas da minha vida.

Outro momento decisivo foi decidir trabalhar como freelancer. Foi uma mudança grande e muito positiva, pois com o tempo que ocasionalmente sobra, eu consigo me dedicar a ilustração e organizar os materiais para as feiras gráficas que participo.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São muitos os artistas que me inspiram, mas vou citar uma em específico, que acompanho há anos e sou fascinada por seu trabalho. É uma artista espanhola chamada Carla Fuentes. Ela faz retratos incríveis, super expressivos e fortes.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Com certeza! Não há como negar que existem alguns degraus a mais que as mulheres precisam subir em todas as áreas. Acho que sou privilegiada por não sentir uma pressão direta com meu trabalho. Porém, uma coisa que fico pensando é que sempre falam que meu trabalho é bem feminino – e, de fato, 75% das pessoas que me seguem no Instagram são mulheres. Mas, me incomoda um pouco essa classificação que reforça as diferenças de gênero.

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Trabalhar tranquila na minha casa, meus gatos dormindo pertinho de mim, no solzinho, uma caneca de café na mesa do lado de um pedaço de bolo.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Criar muito, criar mais, criar o que tu quiser!

Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
Ana Paula Zonta por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

No ano passado eu comecei a fazer ilustrações de personagens de livros. Estou achando interessante, pois é um processo bem diferente do de fazer retratos de personagens de séries e filmes, é mais solto, não fico com a pressão de que fiquem parecidos com os atores, desenho como os imagino.

Há alguns meses também comecei a bordar, estou engatinhando ainda, mas tenho gostado muito de voltar a mexer com tecidos e linhas, minha Bisa Joana ficaria feliz!

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