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Ana Blue
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
23 anos . ilustradora . designer

Desde criança sempre fui muito introvertida, o que fez com que eu buscasse outras maneiras para expressar o que pensava e falava. A primeira maneira, foi com a arte e nunca mais larguei dela. A considero minha melhor amiga. A segunda, foi na adolescência após ter sofrido bullying, criei um blog para não me sentir tão sozinha. E ele está em pé há 9 anos. A terceira (até hoje não acredito que deu certo), foi em ter me enfiado no Youtube. Mesmo com a arte, me ajudando a me expressar, descobri que gosto de compartilhar coisas que gosto e que pode ajudar pessoas que foram assim como eu. E isso foi uma das coisas que me soltou e me ajudou a botar pra fora de uma maneira mais objetiva tudo o que eu sinto e penso, o que de certo modo, a arte me ajuda e ajudou a colocar pra fora, mas de maneira subjetiva. Desde então, nunca mais parei. É intuitivo. Quando percebo, já estou “pipocando” em algo novo.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu sou louca por aquarela e principalmente em fazer coisas à mão. O digital nunca me atraiu tanto. O processo de criar algo do início até o fim, sentir todo o processo, é muito maior que a finalização. Eu sinto mais emoção e me sinto completa com meus pincéis, lápis 4b e 6b, minhas aquarelas e acrílicas (uma da Golden que funciona como aquarela) e papéis de 300g/m com uma textura fina. E muito provavelmente eu vou costurar um sketchbook com todas essas folhas. Haha

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu nunca parei muito pra pensar exatamente nessa questão. Eu criei uma rotina, desde que entrei na faculdade em diariamente sentar e desenhar. É a mesma coisa quando ia pra consulta com a minha terapeuta. Só que ao invés de falar, eu converso com as cores, as formas, as texturas, as minhas ideias. Sempre fui tão ansiosa, tive crise e isso é uma das razões do porque eu não largo a aquarela. Ela sempre me acalma e faz eu me concentrar de uma maneira muito profunda. Com o tempo, eu me encontrei dentro da aquarela, encontrei a minha poética lá dentro. Isso tudo me inspira e eu sinto a necessidade de ter que passar isso pro papel, como um ato de inspirar e expirar, colocar tudo aquilo pra fora. Seja bonito ou feio. Se trás algum questionamento pra mim ou para as outras pessoas, eu já estou bem feliz, porque é isso que a arte proporciona: experimentar o novo e não saber o que vem depois disso.

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// Como é o seu processo criativo?

Vivo 24hs no Instagram, vendo referências diariamente das pessoas que me inspiram. Sempre fui rata de biblioteca (rs) e durante a faculdade eu vivia caçando livros da época renascentista, rococó, história da moda, processo criativo, logotipo.... Sempre estava atrás de um famoso “por quê?’ pra ocupar minha cabeça. Todas essas referências vão parar pelo Instagram, pelo blog ou no meu Pinterest. Uma coisa ou outra que realmente me atrai eu vou aquarelar no meu sketchbook.

Como sempre tive muita dificuldade com composição, a colagem me ajudou demais e aprendi a encontrar uma poética nela também. Na verdade, aprendi a mexer com a colagem por culpa do meu TCC que foi inteiro de colagem, ilustração, aquarela e que no final viraram estampas autorais. Que por culpa disso, me encontrei na área de estamparia.

Sempre gostei de processos que me fazem ter um raciocínio lento e que faça pensar, como um quebra-cabeça. Eu me divirto bem mais assim. Às vezes, sempre aparecem frases caligrafadas ali no meio, que provavelmente foi de algum livro que li e fez sentido pra mim ali na fase da minha vida.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu desenho diariamente. Se algum dia tenho bloqueio, eu não desenho. Vejo filmes (Netflix ou cinema), passo a tarde toda no meu Tumblr ou no Pinterest, saio com amigos artistas para desenhar, vou andar na Daiso Japan (lojas orientais costumam ser coloridas e fofinhas, isso me dá uma inspiração louca), busco por temas legais para falar no meu canal do Youtube... Tento olhar a vida de uma maneira inspiradora e positiva.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O meu TCC foi um marco muito grande na minha vida e ver até o quanto eu podia alcançar com meu trabalho, por mim mesma, emocionalmente... Do quanto eu podia criar com esse turbilhão de cores que transborda em mim e que aprendi a canalizar com a arte...

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Atualmente, sofri um tipo de “bloqueio” porque estou finalizando um ciclo. Quando você menos espera, tudo muda na sua frente só que não percebemos logo de cara. Minhas cores estão mudando se comparado com meus trabalhos antigos. Meus desenhos também tem mudado muito. Há um tempo atrás, como forma de empoderamento pra mim mesma (por ter sofrido bullying e cia), comecei a me fotografar: tanto com roupa ou sem. Para tentar desconstruir a ideia que tinha do meu próprio corpo. Acabei ajudando também a Manu Cunhas com o projeto dela “Outras Meninas”. Acabou que em um trabalho recente meu, eu me usei de modelo para minha própria arte. Dentro dela tem muita poética e sensibilidade. Isso mexe muito comigo ainda, as cores dizem muito sobre meu estado atual. As formas e as linguagens corporais que usei nesses trabalhos também. Arte é um autoconhecimento para o próprio artista. Não é narcisismo ou uma forma de egocentrismo. É algo totalmente natural que acontece há anos. E é muito gratificante eu mesma, ter tido essa forma para me conhecer: natural, pura e leve.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu sou loucamente apaixonada pela Agnes Cecile e o Conrad Roset. Fico maravilhada com a leveza e a delicadeza da época da Maria Antonieta. Gosto também do Renascimento, que por acaso trombei com a Caligrafia Copperplate que estudo ainda por conta própria. Cada tempo um tipo de leveza e uma poética. Aos poucos, aprendi a interpretar cada um deles e trazer um pouquinho pra dentro da minha poética e meus trabalhos.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim! Ainda mais quando ela própria é a modelo principal do seu estudo. Já sofri preconceito e já vi muita cara feia quando parentes descobriram que eu me desenhava. Achavam que era algo vulgar e era aquele assunto de sempre “você não se dá ao valor”. Essa pessoa levou muito tempo para entender o meu raciocínio e assimilar o que eu estava buscando. Não sei se realmente entendeu, mas aparentemente, quando esse assunto é tocado por ela, não tem tamanha “surpresa” como tinha antes. É tudo questão de desconstrução e aceitação.

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// E o que te faz feliz?

Me sentir leve, me permitir e deixar fluir o que eu sinto ao mesmo tempo em que a aquarela escorre no papel. Seja ela, cor quente ou cor fria. Esteja eu feliz ou triste.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se joguem. Experimentem mais. Não tenham medo e sim coragem. Fuja das regras da sociedade, sai de dentro do quadrado. Você não é obrigada à fazer tudo certo ou bonito porque as pessoas acham. Fodam-se elas, literalmente rs... Você tem que sentir a arte dentro de você. Você tem que sentir à si mesma e tentar passar isso pro papel, pro computador, pra parede, pra colagem. Seja a superfície que for. Eu aprendi boa parte das coisas que sei por curiosidade excessiva... Sempre queria saber “o que vai acontecer se eu fizer isso?” ou “por quê acontece isso quando eu faço aquilo?” E assim, você vai entendendo como cada material funciona... Você só vai achar uma resposta quando você se questionar o suficiente. Sabendo disso tudo, você pode usar à seu favor os materiais. Está se sentindo com raiva? Uma pincelada rápida e brusca em um papel seco fará com que você se sinta melhor. E assim por diante.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Atualmente estava finalizando meu novo portfólio físico com as pinturas com a acrílica da Golden (aquela que funciona como aquarela) em que a Catarina Gushiken tem me ajudado muito (assim como foi no meu TCC). Estou para finalizá-lo, criando estampas com o que estou produzindo e reformulando meu novo portfólio online na CargoCollective. Desde que me formei e depois de meu TCC, anda bem complicado conseguir trabalho na área de estamparia. E estou me desvirando do avesso tentando inovar nesse projeto. Aos poucos vou mostrando variantes das minhas estampas localizadas ou corridas nas minhas redes sociais, nas lojas online ou nas feiras independentes, que são um dos modos que tenho para divulgar meu trabalho enquanto estamos nessa crise no Brasil.

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