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Amanda
Zacarkim
Brasil
vivendo em Eindhoven . Holanda
30 anos . jornalista . bordadeira

Eu gosto muito de experimentar e poucas vezes na vida tive medo do novo. É até uma epifania começar a primeira resposta assim, mas desde os 15 anos, quando saí da minha pequena cidade natal - Peabiru, no interior do Paraná, com cerca de 12 mil habitantes - ainda não parei de experimentar morar em novas cidades, estudar, viajar sozinha.

Sempre fui muito ligada à moda, música e à escrita e encontrei no jornalismo uma (primeira) forma de conciliar esses interesses. Trabalhei em revistas e portais como repórter, produtora, e depois como editora online no Sesc SP, onde ampliei meu escopo para cinema e projetos culturais.

Em paralelo à minha rotina como editora, os primeiros encontros do Clube do Bordado, em 2013, começaram a me reconectar com um fazer manual que eu havia deixado de lado na adolescência. E para mim, que sempre me expressei por meio das palavras, o bordado apresentou um novo mundo de possibilidades visuais, uma conexão comigo mesma e com outras mulheres e, enfim, um novo campo de experimentação que só se expandiu nesses quatro anos de Clube do Bordado como empresa e plataforma para difundir o fazer manual para ainda mais pessoas.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A minha principal ferramenta ainda é a palavra escrita em textos e mais textos, que inclusive agora se desdobram em textos conceituais para as coleções e projetos do Clube, releases, vídeos no Youtube e uma tese de mestrado.

Além de, é claro, explorar o mundo das linhas e agulhas, roupas, bastidores e fotografias com os pontos do bordado livre.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu poderia escrever aqui uma lista sinestésica de lugares, cores, sensações. Mas em termos visuais, muitas mulheres e suas histórias - amigas, desconhecidas, ícones políticos, minhas musas musicais - são importantes para que surjam ideias e eu consiga representar um assunto em forma de bordado. Afinal, bordar também é uma forma de contar histórias e aguçar curiosidades.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Para escrever um texto, algo que faço desde "sempre", eu abro espaço para o fluxo de consciência e deixo as ideias virem à tona no papel para só depois editar e sintetizar um ponto. Eu tento escrever com atenção e sensibilidade, e às vezes o processo de escrever é algo que também mexe com minhas emoções, provoca sensações em outras pessoas… Isso aconteceu por exemplo no manifesto do Clube do Bordado pelo fazer manual, um texto que acabou me conectando a muitas pessoas com uma visão parecida sobre o assunto.

Já para um bordado, o processo é mais externo. Como ilustrar é um desafio grande para mim, acabo começando com uma frase ou palavra, penso nas cores e na sensação que quero transmitir e só então pesquiso referências em fotos, histórias em quadrinhos e ilustrações até afinar a ideia e experimentar com lápis e papel. Bordar de fato é a parte mais livre e divertida, o momento de escolher cores e texturas com os materiais.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Leio muito e com frequência escrevo ou rabisco as sensações que um acontecimento, uma música, um livro me despertam. É uma forma de dialogar com isso, uma vez que do simples ato de escrever à mão surgem conexões entre música, arte, política e filosofia… coisas que, mentalmente, se perderiam em milésimos de segundos. Outra coisa essencial para mim é ter conversas longas, profundas e quase metafísicas com alguém querido(a). Acredito que o outro é uma tremenda fonte de inspiração, às vezes é também um reflexo da gente, e assim quando há sincronicidade de assuntos e momentos da vida eu me sinto muito inspirada a produzir criativamente.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

No momento tenho muito orgulho do projeto Gente que Borda. Ele nasceu da vontade de dar voz a mais pessoas engajadas no fazer manual - e que com ele têm descoberto ferramentas para se expressar criativamente, abrir o próprio negócio, superar crises de ansiedade ou depressão, demonstrar afeto, e por aí vai. Esse projeto é também uma iniciativa para valorizar a diversidade e entender que o conhecimento e afeto envolvidos no fazer com as mãos vai muito além da discussão entre arte e artesanato.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu sempre soube que não queria ser "apenas" jornalista. Estava em um emprego muito legal como editora web, trabalhando com cultura, quando o Clube começou a acontecer. Como tudo ia bem, achei que esse era um bom momento para morar na Holanda, voltar a ser estudante e assim criar possibilidades para trabalhar com cultura de outras formas, como realizadora e principalmente como curadora, que é minha próxima meta. Mas foi só ficando longe fisicamente da base do Clube em SP que eu entendi a importância do bordado para mim. O apoio das minhas amigas-sócias e a minha escolha diária em fazer acontecer (à distância e online) me fizeram ver o quanto gosto de trabalhar dessa forma colaborativa e que soma a expressão criativa de cada uma. O bordado acabou permeando minhas escolhas também no mestrado e a minha tese é um reflexo do nosso fazer entre seis mulheres, do Gente que Borda e do quanto buscamos disseminar essa mentalidade do faça-você-mesma até como uma forma resistência e de empoderamento.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eita, tanta gente!

Na arte Rosana Paulino e seu trabalho enquanto mulher negra e brasileira; a poesia da amiga Juliana Bernardo e Paulo Leminski, sempre. A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz que sempre me explica o Brasil e o antropólogo Tim Ingold que me fez valorizar ainda mais o fazer com as mãos. Anna Muylaert e Eduardo Coutinho no cinema, nas relações e na beleza do nosso povo. Na música Tássia Reis, Criolo, Kim Gordon, Nina Simone, Teresa Cristina, Arcade Fire, Warpaint. E sou muito apaixonada pelo Gilberto Gil, especialmente morando fora sempre me vejo cantarolando “como se ter ido fosse necessário para voltar, tão diferente”... Um reflexo disso é que eu me vejo cada vez mais como uma mulher criativa, orgulhosa de quem sou e das mulheres que fazem parte da minha identidade coletiva. Pode parecer pouco, mas morar na Europa me coloca em contato com ideologias dominantes o tempo todo, e assim perceber a nossa riqueza cultural, problematizar meus privilégios e também vibrar com as minhas e nossas conquistas enquanto mulheres brasileiras e latinas é algo que só me deixa mais forte.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinto que nossos lugares de fala ainda são restritos. Há muitas mulheres produzindo mas não necessariamente há distribuição desse conhecimento. No Clube temos a sorte (ou a sintonia) de nos conectar com mais mulheres inspiradoras, mas acredito que cada vez mais temos que criar os meios de propagação para que haja representatividade e diversidade. Isso pode acontecer de uma maneira simples, como a escolha diária de trabalhar com outras mulheres - mães, trans, jovens, idosas, de outra classe social, imigrantes… Mas, de uma maneira geral, o preconceito de gênero ainda está por todos os lados.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ah, muitas coisas! Em geral elas envolvem momentos de conexão - comigo mesma, no ato solitário de escrever, mas também com outras pessoas, no fazer conjunto, ou por exemplo num momento de catarse em um show. Amo essa sensação de pertencimento, sabe? Também fico feliz demais vendo um pôr do sol em um horizonte distante no meio da natureza, só com barulho da mata.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Lembre que suas inseguranças não te definem e, principalmente, abra espaço na rotina para pensar e realizar aquilo que te dá brilho nos olhos. Em outras palavras, acredito muito que “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, como diria meu amado Paulo Leminski.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Acredito que o conhecimento gerado pelo fazer manual (da arte, do bordado, do crochê, da costura, da permacultura, da culinária, da música) é peça-chave para homens e mulheres formarem novas identidades no âmbito pessoal e coletivo; e que essas identidades podem ter impactos (micro)políticos relacionados em bem estar social, expressão criativa e empoderamento. Minha tese de mestrado trata desse tema, e assim que ela estiver concluída quero levar essa discussão adiante em iniciativas com o Clube do Bordado e parcerias para viabilizar cursos e empreendimentos no Brasil e na Holanda.

Amanda Zacarkim por Projeto Curadoria

Foto do perfil/divulgação por Gustavo Velho

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