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Aline
Folha
Brasil
vivendo em Belém . PA
31 anos . ilustradora

Desenho desde criança, era parte considerável do meu brincar. Via minha avó, que era costureira, desenhando modelos de roupas para suas clientes e tentava fazer como ela. Criava personagens nos meus desenhos, quase sempre mulheres, e enquanto desenhava conversava com elas, como se fossem se materializar. Acho que essas mulheres eram várias versões de mim, dos meus anseios... são ainda, porque continuo a desenhá-las. Meu trabalho é muito a respeito do universo feminino em sua diversidade, dinâmica, mistérios, desejos.

Hoje, atuo como ilustradora e dou aula de Desenho e Ilustração de Moda, em uma faculdade em Belém. Tenho, junto a outros dois artistas amigos, o Breno Filo e a Wlad Lima, um grupo de desenho chamado Brutus Desenhadores. Reunimo-nos todas as terças de manhã para desenhar juntos – e rir, desabafar, comer e “poetar-pensar”, como diriam eles.

Aline Folha por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Isso depende muito do projeto: utilizo lápis grafite, nanquim, carvão, aquarela. Se for pintura em parede – que adoro fazer, porque é como uma montanha gigante de papel na minha frente, pronta pra ser ressignificada – uso tinta acrílica. Certo é que tudo começa no desenho, para mim.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O cotidiano, o que ouço e vejo nos lugares que vou e a moda me inspiram. Principalmente tudo o que envolve o ser-mulher nesse mundo: a delicadeza e a rudez, a vulnerabilidade e a força, os mistérios e o óbvio. O universo feminino é minha principal fonte de inspiração e saber que, de alguma forma, posso tocar as pessoas, fazer bem a elas com minha arte, me motiva a continuar. É preciso espalhar amor por onde a gente passa.

Aline Folha por Projeto Curadoria
Aline Folha por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Normalmente, é um processo solitário (exceto nos encontros com os Brutus Desenhadores), em que fico horas imersa em um projeto, fazendo alguns rascunhos e testando suas possibilidades. Utilizo várias ferramentas como o Pinterest para fazer banco de imagens que me ajudam a me inspirar para cada processo.

Uma curiosidade é que, via de regra, não ouço música para desenhar. Gosto do silêncio e do som ambiente; gosto de ouvir pequenas conversas que surgem na rua ou, mais ainda, o som do lápis riscando o papel.

Normalmente, quando o suporte é o papel, as coisas se resolvem mais rápido. Não gosto de ficar muito tempo – e por muito tempo eu me refiro a dias, meses... – em um mesmo processo, então faço rascunhos para o desenho em si, mas para a pintura é sem ensaio, definitivo. Sinto que quando faço muitos testes, acabo esgotando o desejo de desenhar/pintar a coisa e logo perco o interesse, quero mudar de inspiração. Para evitar essas fugas, aprendi a ser mais imediatista sem comprometer a qualidade do trabalho.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento sempre ouvir o som das pessoas e da cidade e imaginar suas histórias de vida. Isso me faz bem e me enche de vontade de criar. E para os momentos em que me sinto esgotada, sem força criativa, leio Clarice Lispector – ela sempre me dá uma luz!

Também gosto de pesquisar os trabalhos de outros artistas, para me manter inspirada com a diversidade de conteúdos que abordam, e desafiada a melhorar minhas habilidades.

Aline Folha por Projeto Curadoria
Aline Folha por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Difícil escolher. Gosto muito de um projeto autoral que parece bobo, mas me relaxa demais: o de desenhar minhas personagens femininas em diversos contextos, de acordo com a época do ano ou alguma vontade que me ataque no momento. Também adoro os projetos de paredes, porque me coloca em contato direto com o cliente e seu espaço, dando-me a oportunidade de conhecer a sua história pessoal ou sua trajetória profissional.

Por fim, tem um projeto que amo, mas parei: o de desenhar meus sentimentos diários em pequenos sketchbooks. Preenchi quatro deles, começando em 2013 até 2016. Chamo-os “cadernos do abismo”.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que tem dois marcos. O primeiro foi quando realizei minha primeira exposição individual, intitulada “Elas”, em maio de 2015, em Belém. Foi especial porque pude ver como as várias vertentes do que crio – os trabalhos super pessoais nos sketchbooks, os trabalhos comissionados, as estampas... – estão muito conectadas entre si: falam da mulher sempre em estado de poesia e transição; mulheres em transformação. Acho que foi a primeira vez que mostrei meu trabalho para tanta gente ao mesmo tempo e que recebi muitos feedbacks de pessoas que foram visitar a exposição. Foi divertido!

O segundo marco é recente. Em 2016 e 2017 desenhei os mantos oficiais que vestem a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, para o Círio, a maior procissão de fé do Brasil, que acontece em Belém todo mês de outubro. Desenhar, para mim, sempre foi uma conversa – com a matéria, com meu entorno, comigo mesma – e uma doação. Nesses dois anos desenhando os mantos, aprendi a aprofundar essa conversa, me conectar com tudo o que considero sagrado na minha criação. Aprendi a acreditar mais em mim, a ter fé que tudo vai melhorar. Aprendi, também, a gostar de desenhar flores, o que eu tinha a maior dificuldade antes e agora é um exercício de relaxamento. Desde então, venho recebendo vários briefings de projetos que envolvem flores, flores e mais flores. Pra mim, está ótimo: nada melhor que ver o mundo com olhos floridos.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Meus artistas preferidos são Egon Schiele, Toulouse-Lautrec, René Magritte e René Gruau. Entre os mais contemporâneos, adoro o trabalho da Catarina Gushiken – com quem muito aprendi de ilustração durante os cursos na Sala Ilustrada – da Fernanda Guedes, do Leonilson – amo a obra dele! –  da Monica Rohan e de alguns ilustradores de moda, como a Inslee, a Katie Rodgers e o Arturo Elena. Como minha inspiração tem por base, principalmente, o dia a dia da mulher e a forma como se relaciona com a moda como expressão de sua personalidade, inspiro-me muito nesses artistas para compreender como trabalham o movimento, seu uso de cores e técnicas de pinturas, bem como as formas que encontraram para se (re)inventarem como artistas em um mundo saturado de imagens.

Aline Folha por Projeto Curadoria
Aline Folha por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

No trabalho como ilustradora, nunca sofri preconceito por ser mulher, mas já o sofri por ser paraense e falar com sotaque diferente – na época, morava em São Paulo. É uma sensação de indignação sem tamanho!

// E o que te faz feliz?

Desenhar me faz feliz, cura, mesmo que momentaneamente, qualquer tristeza. Viajar, amar, estar perto da família e dos amigos também garantem uma boa dose diária de felicidade.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Insista. Persista. Quebre a cara e volte a persistir. Inspire-se no que você sente, no que deseja. Estude, aprenda coisas novas, renove-se. O mercado precisa de gente que invente com poesia, com sentimento. A vida precisa de invenções para ser poética. Ame, sem medo.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Em Dezembro, lanço uma agenda com ilustrações em aquarela, celebrando as mulheres, em parceria com a wedding designer Luiza Acatauassu. É só ficar ligado no Instagram!

Aline Folha por Projeto Curadoria
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