m
Adriana
Stolfi
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
32 anos . artista . ceramista

Durante a minha vida sempre vivi a arte de diversas formas.

O início foi um aprendizado com minha avó, que era uma mulher a frente de seu tempo, ela pintava, bordava e plantava. Meu pai, que é engenheiro eletrônico, havia sido cartunista quando jovem e me apresentou a cultura eletrônica e os quadrinhos. Desde cedo, ele era muito exigente com meus desenhos.

De alguma forma, foi frequentando fliperamas que conheci o hip-hop e acabei dançando por anos, onde começou meu interesse no corpo como arte. Na mesma época, estava para me formar em um curso de design e marketing quando mudei de ideia e fui estudar Artes Visuais, começando a trabalhar com cerâmica.

Nos últimos anos de faculdade, tive endometriose, uma doença silenciosa e feminina que permeou meus pensamentos e reflexões. Minha produção era toda voltada ao corpo e à essa vivência. Porém, recém formada e sem muitos recursos, comecei a trabalhar com moda ainda um pouco por acaso, desenhando estampas. De repente me apaixonei por poder vestir as pessoas com o que eu criava. Durante muitos anos foi só o que fiz.

No momento em que a vontade de viajar, sair do lugar comum e experimentar não eram apenas vontades e passaram a ser quase táteis possibilidades, decidi retomar minha produção, o ateliê de cerâmica, os desenhos e as plantas.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

De colagem digital à escultura de cerâmica, todos os materiais tem seu valor e comunicam algo que é só deles. As ferramentas são as escolhas do momento, das preferências e da experiência à entregar.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Quando vejo algum trabalho de arte e sinto uma enorme força e emoção, ou que me coloca em um lugar que não é o meu, que completa ou me dá reflexões, penso que quem a criou fez um ótimo trabalho, procuro isso. Por muitos anos tive a dúvida do papel do artista, me sentia menos útil se comparada com funções mais objetivas, mas o mundo não vive sem arte. O artista precisa lubrificar a vida.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

As ideias vem na minha cabeça o tempo todo, quando era mais nova, tinha muita dificuldade em terminar qualquer projeto, porque ainda no meio de um, me vinha uma nova ideia que parecia muito melhor, eu parava o que estava fazendo e começava outra.

Os anos de trabalho em escritório me ajudaram a ver como é preciso formalizar uma ideia para que ela possa ser consumida. Hoje tento seguir uma linha, sinuosa, mas mais clara, quando tenho uma ideia, rabisco em algum lugar. Quem sabe no futuro...

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

A minha criatividade vem de um contato com algum assunto, e depois de um tempo de digestão, para mim é imprescindível o silêncio e a solidão. Sumir um pouco pra ideia aflorar.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Ainda hoje acho que meu trabalho preferido foi o que fiz ao me graduar. A série se chamava “Permanências” eram esculturas de cerâmica paper-clay em grandes formatos, conforme eu as modelava ia deixando uma rebarba marcada no interior, dando um aspecto visceral, no momento de expor elas estavam cheias de água vermelha, que ia sendo minada e filtrada pelas paredes externas. Acho que gosto tanto, pois na época tive uma combinação perfeita de tempo disponível e recursos para produção que ainda não se repetiram, mas que tenho trabalhado para isso. Foi uma realização de grande dificuldade mas que colocava fisicamente muito.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive muitos momentos de mudança, mas um momento interessante e até um pouco engraçado, foi conversando com uma colega de trabalho, ela falava da vontade de aprender cerâmica e eu disse que tinha me formado com esculturas de cerâmica, ela me olhou como se isso não fizesse o menor sentido e perguntou “e o que você está fazendo aqui?”, eu achei muito engraçado, pois pra mim tinha mil motivos, mas naquele momento aquela pergunta fazia mais sentido que todas as outras vezes que eu havia parado para pensar.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Sou uma pessoa sensível, tenho muitas influências que não fazem o mesmo caminho, amo Louise Bourgeois como amo jogar um bom video-game. A arte conceitual me inspira tanto quanto visitar um museu de arte clássica.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Infelizmente sim, já estive na mesma função de um homem produzindo mais e ganhando menos da metade. Aceitar não ajuda, ter raiva também não. É interessante rever o quanto você mesma apoia mulheres no seu dia-a-dia, fazer uma crítica real e comparativa pode ser chocante.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Muitas coisas, tudo em certa quantidade é bom, contato, troca, solidão, agito, paz… às vezes, até mesmo a tristeza afirma a felicidade.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

As motivações de cada pessoa varia de acordo com a própria verdade, conhecer seus objetivos ajuda muito. Ainda com dúvidas e mesmo que devagar, continue sempre!

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

O meu trabalho contínuo mais recente são as Flores-Vulvas, elas vem diretamente do meu trabalho “permanências” mas dessa vez é algo bem específico. Pra mim foi como uma libertação começar a fazer elas, eu sentia essa perseguição, não importa como aparecesse, ou colocado, quando qualquer coisa tinha referência com vulva, era sempre um tabu ou um erótico vulgar.

Me senti na necessidade mesmo de fazer algo fora desse aspecto, não digo que é fácil, muitas vezes tenho um retorno negativo, no início as pessoas que viam estranhavam muito, comecei elas em 2016 e consigo ver claramente como hoje as pessoas têm entendido melhor, me sinto menos sozinha com todo o movimento feminino que está acontecendo.

Adriana Stolfi por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas