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Adriana
Ferraz
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
31 anos . designer . estilista

Libriana, tímida, raynha das emoções, quando pequena era péssima com palavras. Minha mãe pintava e tinha um ateliê dentro de casa e minha avó era das artes manuais. Então desde pequena por influência delas passei a me interessar por fazer algo com as minhas mãos. Começou como uma hobby nas férias e percebi então o bem que aquilo me fazia. Gostava muito do processo meditativo, mas e além disso comecei a me descobrir através daquelas produções “infantis”, que aos olhos dos outros eram bobagens mas que para mim traziam sentido à minha vida e a partir dali comecei a saber quem era.

Aquele era meu mundo, sempre inventava novas coisas para fazer e então passei a vender aquilo que fazia. As pessoas gostavam e ai queria aprender e testar cada vez mais. Por isso percebo que tenho o lúdico muito presente nas minhas referências de trabalho, porque foi ao longo da infância que eu tive contato com a arte e a arte mudou a minha vida.

Era como se eu tivesse dando um presente para o mundo. Eu não lembro como começou mas daí eu passei a estudar um pouco de tudo. Tenho muito essa necessidade de saber de tudo um pouco e querer abraçar o mundo. Já estudei fotografia, bordado, tricô, macramê, origami, miçanga, escultura, costura, desenho, cerâmica, escultura em papel, moda. Na realidade é necessidade de fazer algo, estar sempre em busca, em movimento, é um processo bem insano, bem caótico mesmo. Bem confuso mesmo, de coisas e vontades que dão origem a diversas coisas. Hoje meu movimento é tentar criar temáticas e trabalhar com bastante consistência dentro daquilo. É bem desafiador pra mim já que minha cabeça e olho se cansa rápido e existem mais milhões de outras ideias que quero executar. Acho que por isso me dei bem no design de superfície porque é uma área bem ampla na qual eu consigo estar sempre em movimento trabalhando e aprendendo diversas técnicas.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Apesar da estamparia ter foco estritamente comercial, eu diria que me expresso por meio das minhas estampas/adornos para superfícies em geral (bordados, rendas, auto relevo). Estou sempre colocando minhas melhores energias, pensando em inovar, compreender as pessoas e o que elas querem, entender o mercado, testando novas técnicas, buscando novas referências, devolvendo e materializando aquilo que acredito para o mundo. Parece loucura mas o cliente final percebe e a gente consegue gerar um resultado bacana para quem investe no nosso trabalho. Eu sou a prova hoje, e estou sempre provando para as pessoas todos os dias que investir em um trabalho de arte bom e consistente gera sim resultados financeiros. Arte e empresas podem sim andar juntos.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Continua sendo dar esse tal “presente para o mundo”. Levar coisas bonitas, frescas e com significado para as pessoas. Gerar resultados positivos para os meus clientes através da arte da minha intuição. Provar para eles que o trabalho com amor alcança sim as pessoas mesmo que na prateleira de um grande magazine. A gente se conecta.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É um caos! Já fiquei muito brava com esse caos meu, mas resolvi abraçar e incorporar isso dentro de mim. Hoje vejo que o meu caos é o meu grande trunfo. Meu processo cada hora é de um jeito, eu sigo muito a minha intuição. Como trabalho com tendência, acabo pressentindo que tenho que fazer tal coisa às vezes por não ter mais no mostruário ou por ter visto algo no meio do caminho que me inspirou. Analiso e busco referências internas de repertório. Eu sou uma esponja nada passa desapercebido, às vezes fica lá guardado mas eu brinco que fica na minha biblioteca virtual e um dia eu uso. Nada pra mim é perdido! Quando encontro algo novo, uma temática, mergulho no tema, assim consigo trazer elementos novos e abordar esse tema de forma mais interessante. Monto um painel e cartela de cores. E partir desses elementos inicio os estudos. Depois disso eu realmente acredito que não sou eu, a maioria das vezes o processo flui no automático. Às vezes mais rápido, às vezes menos. Tento controlar minha ansiedade e respeitar o tempo das coisas pois criação é isso, não se pode controlar sempre, senão não se cria, vira um robô.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Muita yoga e meditação. Esporte. Leitura. Escuto muita música de vários gêneros. Pessoas, amo observar pessoas. Buscar referências artísticas de outras áreas. Amo estudar e descobrir novas plantas, texturas. Tirar foto do que encontro no meu caminho. Gosto muito de trocar e conversar com outras pessoas sobre arte e/ou filosofar sobre a vida mesmo. Estar em contato com a vida cultural da cidade e a natureza são combustíveis poderosos aos finais de semana. A cidade me inspira e a natureza me dá a calma para criar. Esses dois paradoxos alimentam muito o meu lado criativo e constantemente estão presentes nos meus trabalhos. Pra mim estar em movimento é muito importante para estimular meu fluxo criativo.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Nossa que difícil! Bom, eu gosto muito de entrar em contato com as minhas raízes, trazer um pouco de Brasil, de Minas, da cultura popular nos meus trabalhos, mas também não gosto de nada literal. Gosto de um trabalho quando olho para ele e consigo me ver ali. Amei a identidade visual, o conceito e as estampas que fiz para o meu casamento, ultimamente esse tem sido meu xodózinho. Minha última coleção que fiz para Premiere Vision de Paris entrou também na minha lista de xodós.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que tenha sido quando larguei meu emprego e fui morar fora, fiz uma pós em moda. Naquela época já tinha em mente que gostaria de trabalhar com estamparia mas não existiam quase profissionais no ramo aqui no Brasil, era algo realmente novo.

Quando voltei abri o estúdio, me joguei, fechei um projeto com uma estilista que admirava muito e nunca mais parei. Foi um processo bem transformador pois aprendi tudo do zero.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Olha eu realmente amo descobrir pessoas que inspiram e cada hora é um. Hora um tatuador, hora uma pessoa diferente, hora um cantor novo cheio de personalidade. Valorizo muito o ser humano comum!

Falando de pessoas ilustres uma referência que é quase que permanente é a Marina Abramovic principalmente pelos últimos trabalhos ligados a parte espiritual, algo que também estou estudando muito ultimamente. Amo o trabalho da Helen Rodel, além de maravilho, amo o significado e a relação dela com o tempo. Ultimamente conheci o trabalho da Verena Smit e me apaixonei pela leveza, simplicidade e os trocadilhos com as palavras.

Acho que essas pessoas me inspiram porque são muito reais e pelo significado poderoso que vem por trás dessas performances, roupas e frases.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Olha eu acredito que exista. Às vezes quando chego com a minha mala em algum lugar vejo que as pessoas me olham. Talvez por me acharem com cara de nova ou de repente por ser mulher. Eu realmente não sei mesmo. Isso também não me afeta, se é eu também não absorvo, e se for vira combustível para querer vender meu trabalho ainda mais. Pra mim esse tipo de pensamento realmente não passa na minha cabeça. Nunca deixei de fazer algo por ser mulher, nunca aceitei quando me falaram para não fazer e também nunca me senti diferente. É de dentro pra fora mesmo e costuma dar certo.

Eu acredito que artistas que retratem mais a questão da sexualidade feminina da liberdade sexual sintam isso mais do que eu. Na área de estamparia temos muitas mulheres atuando.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ver o meu trabalho sendo “vestido” andando por aí.

Viajar para onde não tem sinal de celular. Fazer trekking de vários dias imersa na natureza e acampar. De preferencia no Brasil. Conhecer a cultura de algum outro país, comprar artesanato. Explorar São Paulo descobrir coisas novas, amo a minha cidade caótica e maluca.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Insistam, acreditem e gerem movimento na vida de vocês. Busquem se conhecer.

Façam coisas que tenham significado. Tenham amuletos, construam eles, cuide do seu local de trabalho, monte ele com amor. Construa uma base sólida do seu mundo, você vai precisar lembrar o porque resolveu fazer isso da vida todos os dias.

Logo no começo quando eu embarquei nessa aventura de ter estúdio um amigo querido escreveu e pendurou na minha parede o seguinte dizer: “A água fura a pedra não pela força, mas sim pela constância”. Essa frase eu levo sempre dentro de mim quando as coisas estão difíceis.

E por último e não menos importante: traga pra perto de vocês as pessoas certas. Troque informações, se questione sempre e escute críticas.

Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
Adriana Ferraz por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Nós estamos começando a Panou uma marca de biquinis para colocar no mercado estampas que não foram compradas e apostamos. Vamos apostar nas estampas que ninguém deu amor!

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